segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Encontros, reencontros

Não há como saber de antemão as tramas do acaso e das coincidências. Devemos cuidar bem do encontro, não por interesse espúrio, mas para que, no caso de a vida trazer o reencontro, possamos celebrar o encontro havido. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

(Des)apontamento 53

Andam dizendo que a Terra é chata. Não é. Parte da população é. 

A ventura de ler

Li hoje uma entrevista com Luis Fernando Verissimo no extraclasse.org.br. Ele diz: “Concordo com o que diz o Zuenir Ventura, que não gosta de escrever, gosta de ter escrito. O ato em si não é muito prazeroso, não”.

Numa dessas saborosas coincidências relativas à leitura, também hoje, pouco depois de ter lido a entrevista com o Verissimo, li crítica do imprescindível Pablo Villaça sobre o filme “mãe!” (com letra minúscula mesmo). Escreveu ele: “Frank Norris, numa frase frequentemente (e incorretamente) atribuída a Dorothy Parker, observou que ‘odiava escrever, mas amava ter escrito’”.

Bom mesmo é ter lido, bom mesmo é estar lendo. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Fernando Sabino e a tradição da crônica

Herman Melville, em seu monumental Moby Dick, escreveu, no capítulo cento e quatro do livro, segundo a tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos: “Para escrever um livro imenso, tendes de escolher um tema enorme. Nenhum volume grandioso e duradouro poderá jamais ser escrito sobre a pulga, embora muitos já o hajam tentado”. [1] Obviamente, não se pode descontextualizar uma afirmação, seja ela literária, seja ela não literária. Quando se descontextualiza, pode-se fazer injustiça para com a afirmação ou para com quem a tenha feito. Sejamos justos com Herman Melville. Moby Dick é um livro do século XIX, período em que as conquistas artísticas do século XX praticamente nem haviam se insinuado. Sim, Moby Dick é suntuoso, ambicioso, grandioso, grandiloquente. Mas o que poderia ser dito, digo, não de uma pulga, mas de algum freguês de alguma taverna frequentada por Ismael, o narrador de Moby Dick? Quais seriam os dramas desse frequentador? Que mares já teria ele navegado? Do que ele sentia saudade? Quantos sonhos deixou para trás? Qual a bebida favorita dele? Preferia ele o verão ou preferia sair de viagem logo pela manhã? Ismael não está interessado nisso que poderia ser considerado questões menores diante do assunto literalmente gigantesco que escolheu para tratar. Todavia, é também na vida do homem “menor” que a crônica, tal qual será abordada neste trabalho, está interessada. Deixemos de lado, por ora, as estupendas digressões de Ismael. Passemos a outro tipo de digressão. Falemos, a princípio, da crônica como gênero literário.

Em sua essência, parte-se do pressuposto de que a crônica é, antes de tudo, um gênero cujo texto é breve. Isso porque, em sua história, a crônica como tratada aqui, não a crônica dos navegadores e seus relatos, nasce para ser veiculada em jornal. Não ao modo de um romance cujos capítulos vão sendo publicados pouco a pouco por algum periódico, mas à maneira de um texto que começa e que logo termina. É um texto breve, mas essa brevidade abarca o começo, o meio e o fim do que se diz. Amanhã é um novo dia; um novo dia pede uma nova crônica. É um gênero escrito no calor dos acontecimentos, na urgência que pedem as redações, que, não raro, estão a pressionar o cronista para que ele entregue a crônica, não importa se é um texto diário ou um semanal.

Sempre que o assunto é a crônica, não raro, paira a ideia, o questionamento ou a sugestão de que ela seria um gênero menor. Ora, mas o mero uso do adjetivo “menor” para se referir ao gênero crônica implica o outro lado da moeda, ou seja, implica a existência de gênero ou de gêneros considerados maiores. E quando se considera haver gêneros maiores, remete-se à clássica divisão grega, aristotélica. Todavia, estamos agora tratando da crônica, um gênero híbrido, escorregadio, sem regras claras. Afinal, dizer que a crônica é um texto breve geralmente veiculado em jornal é definição que não é capaz de precisá-la. Se tentarmos fechar o cerco a fim de se achar uma definição para a crônica, pode ser que não achemos uma só, pode ser que não haja unanimidade. Todavia, ainda que considerada por alguns literatura menor, importa-nos o seguinte na expressão “literatura menor”: deixar de lado o adjetivo “menor” e nos concentrarmos no substantivo “literatura”.

Sim, a crônica é literatura. Que este texto sirva também de argumento meu a favor do que afirmei na frase anterior. Por ser literatura, ela consegue, de antemão, tornar-se atemporal. O que a torna atemporal é o fato de ela se debruçar sobre um aspecto da realidade que é permeado por aquilo que temos de subjetivo, por aquilo que somos, por aquilo que sentimos, aquilo que compõe as experiências cotidianas por que passamos. Fenômeno nascido com a popularização da imprensa no século XIX, a crônica tem, como estrela, no mais das vezes, o cidadão urbano, “anônimo”. Para me valer de nome de personagem criado por Drummond, que também era cronista, a crônica, não raro, debruça-se sobre um João Brandão qualquer, que transita em meio aos demais, como se fosse mais um. Só que para a crônica ninguém é só mais um, seja na multidão, seja no escuro de um quarto solitário madrugada adentro.

Na letra da canção “Notícia de jornal”, Chico Buarque, esse cronista em verso e em letra de música do cotidiano brasileiro, escreveu que “a dor da gente não sai no jornal”. Claro que a constatação de Chico se refere ao texto da notícia-padrão, que é “fria”, destituída de pessoalidade; como produção, é um gênero em que o personagem de que fala a letra da canção de Chico Buarque é mais um, é tratado como um número a mais — ou a menos, dependendo do teor da notícia. Todavia, não é o que se dá quando se trata da crônica. Ela não tem o compromisso com a notícia nem com o fato como ocorrido, o que, por si, já começa a dar a ela ares de literatura, mas, a despeito desse não compromisso nem com a veracidade nem com os dados nem com os números é que a crônica foi se esgueirando em meio às páginas dos jornais, em meio a textos literalmente datados. Mostrando que era algo mais do que notícia ou, pelo menos, algo diferente da notícia, embora possa ser escrita a partir, também, de uma notícia, a crônica, com o passar das décadas, foi parar nos livros, sem ter deixado, contudo, de frequentar as páginas dos jornais e, hoje, dos blogues, das redes sociais ou dos sítios. Num mundo iconoclasta, que gosta de asseverar a morte de tudo, a crônica segue viva, continua sendo lida, debatida, divulgada. Como prova disso, basta mencionar que no sábado passado, durante a Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, ocorreu o debate “Cronistas contemporâneos”. Com a mediação de Arnaldo Bloch, participaram do evento Fabrício Carpinejar, Raphael Montes e Afonso Borges. A própria organização da Bienal divulgou no sítio do evento o seguinte texto: “Alguns escritores parecem ter a capacidade de identificar, em meio ao cotidiano, os traços que definem a época e marcam a sensibilidade das pessoas: são os cronistas. Seus poderes de observação são um capítulo à parte na cena literária brasileira”. [2] O próprio Carpinejar, só para ficar num exemplo, escreve crônicas para a Revista da Cultura, periódico mantido pela Livraria Cultura. O Brasil citadino consagraria também no gênero crônica autores como Machado de Assis, Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo, Mario Prata, João Ubaldo Ribeiro, Fernanda Takai, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Lêdo Ivo, Stanislaw Ponte Preta, Lima Barreto, Antônio Maria e, claro, Fernando Sabino.

Contudo, antes de eu discorrer especificamente sobre o cronista pelo qual estamos aqui, permitam-me algumas cogitações sobre a crônica ser, não raro, tida como gênero menor. Não é minha intenção nem esgotar o assunto nem oferecer resposta cabal para a questão. Mesmo assim, recordemos, a crônica, do modo como mencionada aqui, nasce nos jornais. É para ser lida rapidamente. Amanhã ou na semana que vem haverá outra e depois outra e depois outra. A crônica não tem intenção nem espaço de se debruçar sobre temas que demandariam tempo para serem desenvolvidos. Não bastassem essas características, dependente do meio em que era veiculada, a crônica caiu no gosto do leitor de jornal, que nem sempre era o leitor da chamada grande literatura, nem sempre era o leitor do cânone. Mesmo hoje em dia, é muito comum alguém dizer que é leitor de crônicas ou dizer que tem na crônica o gênero favorito, mesmo sem se dedicar à leitura dos gêneros clássicos ou à leitura de autores canônicos. Um texto que não demanda erudição para ser apreendido nem demanda leitores acostumados a produções de maior fôlego. Essa é a crônica, que é, no mais das vezes, compreensível para qualquer um. Precisamente isso é o que pode fazer com que alguns torçam o nariz para ela. Haveria em função disso, por parte de alguns que se consideram representantes de uma suposta elite intelectual, a presunção de considerar a crônica como gênero menor por ela ser lida e apreciada por aqueles que não têm tradição de leitura. Essa empáfia, não somente no que diz respeito à crônica, sugere que o que cai no gosto popular perderia as prerrogativas de ser considerado arte verdadeira ou arte maior, atemporal. 

Não levo em conta essas arrogâncias. Vamos nos deter em algumas características que podem fazer com que a crônica se torne literatura. De antemão, digo que a brevidade não pode ser usada como argumento. Emily Dickinson está no panteão dos grandes poetas. A obra dela é composta por versos breves, epigramáticos. Se concordarmos, pois, que o caráter de literariedade não está na extensão do texto, podemos aventar possibilidades ao defendermos a crônica como sendo literatura.

Uma delas diz respeito ao não compromisso que a crônica tem quanto à verdade factual, quanto à abordagem jornalística. Ainda que o ponto de partida seja fato verificável, fácil de ser comprovado, o viés da crônica não é o do jornalismo, o de relato de onde, de quando e de como, embora tais informações possam estar no corpo dela. Não, a crônica não vai apenas relatar, por exemplo, que nesta semana os vereadores locais visitaram o Rio Paranaíba a fim de conferirem os estragos da seca no leito que um dia foi caudaloso. Isso, já noticiaram os sítios, o jornal, a televisão, as rádios. Mas a realidade é cheia de facetas. O mesmo evento permite várias abordagens. A do cronista é captar a partir das miudezas ou das não miudezas do cotidiano um texto que pode soar às vezes algo ingênuo, às vezes poético, às vezes opinativo, às vezes doce, às vezes saudoso. Nesse caldeirão podem estar o futebol, a política, a erudição, a conversa de bar, a amizade, o amor, a arte, a metalinguagem, a guerra... É curioso: não há receita para a crônica, não há amarras que a definam com precisão. Ainda assim, sabe-se reconhecer uma quando se está diante dela. O cronista diz de tal modo que ele pode ser uma espécie de poeta em prosa breve. Ainda que não seja oficialmente poeta, tem em si alma de poeta, carrega em si o senso poético, o senso do espanto, da estranheza, da análise por ângulos inusitados. É como se o cronista olhasse para as coisas não com o olhar desgastado e sem graça do adulto, mas com o espírito de quem contempla as coisas pela primeira vez. Essa atitude mental ou esse espírito acabam fazendo com que o cronista desvele ou revele para o leitor aquilo que esteve diante dele o tempo todo, mas que havia passado diante dele sem que ele se desse conta. O cronista é, antes de tudo, um observador, uma pessoa que presta atenção, que olha, que repara, que se debruça sobre a vida que passa, que anda de ônibus ou que namora num banco de praça.

É então que nos damos conta, graças ao cronista, que a vida do cidadão “anônimo” pode gerar literatura. O historiador Eric Hobsbawn, no imprescindível Pessoas extraordinárias, evidencia que a história não é feita somente por quem detém o poder. O cronista evidencia que para figurar na literatura não é preciso ser um rei, um presidente, um nobre, um rico. O vendedor da feira ou o padeiro são tão dignos de literatura quanto a realeza de algum país nórdico. Ainda que se concentre sobre um personagem assim, a crônica destacaria nele não a imponência do cargo que ocupa, mas aquilo que uma pessoa assim tem de prosaico, de acessível, por assim dizer. É o que Shakespeare fazia com seus personagens nobres, mostrando-os em situações engraçadas ou vexaminosas, é o que Tom Wolfe faz com seus personagens de Wall Street, preocupados em ter seu primeiro milhão de dólares antes dos vinte e poucos anos. O cronista sabe muito bem que antes do cargo ou da pompa há uma pessoa, um indivíduo, que compartilha pontos em comum com todos os demais indivíduos. Esses pontos em comum, é claro, não estão nos cargos que ocupam nem no dinheiro que têm nem no poder que detêm.

A crônica não está interessada em pseudomistérios, em construir teses, em dar resposta aos supostos desígnios do Universo. Um dos méritos da crônica é exatamente o de edificar literatura a partir do que é evidente e trivial. Se há algum mistério trazido pela crônica, esse mistério é o que existe em tudo. Um mistério que surge a partir do que é compreensível, alcançável. Num sentido amplo, o exercício da crônica é a edificação de uma literatura humilde, postura de quem não oferece uma resposta pronta, mas uma acessível inquietação com o sem-número de não respostas que todos carregamos em nossas idiossincrasias. A crônica se posiciona frente ao mundo não ao modo de quem se predispõe a destrinchar seus mecanismos, mas à maneira de quem tem olhar curioso diante das engrenagens. A crônica nem sempre dá respostas, mas com frequência tem questionamentos inquietantes e poéticos. 

A fim de ilustrar essas questões sobre as quais tenho teorizado, transcrevo a seguir a crônica “Notícia de jornal”, que extraí da coletânea As melhores crônicas de Fernando Sabino:

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome. 

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.

Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa — não um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De 30 anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome. [3]

O texto, escrito a partir de notícia lida em jornal, segundo o narrador, exemplifica com perfeição o cerne da crônica, que é o de extrair do cotidiano o material de que é feita. Embora careça de alguns dados para ser considerado notícia de jornal, o texto, com pequenos ajustes, poderia ser jornalístico. Contudo, a leitura dele nos revela que há algo mais, que o relato não é somente uma notícia de jornal. O leitor pode até não saber esmiuçar o que diferenciaria o texto de uma notícia, embora intua haver algo a diferi-lo do gênero estritamente jornalístico. Tentemos destacar alguns procedimentos que fazem com que “Notícia de jornal” seja, num sentido afunilado, crônica, e, num sentido amplo, literatura.

De início, tem-se a reiteração, com pequenas variações, da expressão “morreu de fome”. Uma típica notícia de jornal anunciaria apenas uma vez a causa da morte. O tom seria o mais neutro possível. Uma notícia não chamaria o homem de “coisa”, não teria seu autor se perguntando “que é que eu tenho com isso?”, para depois, em sua retórica, afirmar: “Deixa o homem morrer de fome”. Esses são apenas alguns exemplos de que a crônica permite carga maior de subjetividade do que o texto jornalístico. Ela tem tido o jornal como suporte, mas jornalismo não é, mesmo sendo com ele confundido. Ou pelo menos não é só jornalismo. É também literatura. 

Tomemos outro exemplo. Um caso em que um grande poeta aparece, depois de ter consumido boas doses de álcool em Belo Horizonte, fazendo um comentário prosaico; mostra-se um lado dele que não diz respeito à excelência de seus versos, embora ele já fosse conhecido pelo estilo de vida boêmio que levava. Além disso, o que poderia ter se tornado uma digressão é logo interrompido, cedendo o lugar a afirmações bem mundanas, distantes do tom elevado que o texto poderia ter assumido. O trecho a que me refiro está na crônica “O menestrel do nosso tempo”. Por enquanto, não direi o nome do poeta que é mencionado no texto. Eis o trecho:

Era uma delegação de intelectuais que visitava Belo Horizonte, em 1943, a convite do então prefeito Juscelino. Em meio a tanta gente, ele era o poeta. E alta noite fomos ver a lua no Parque Municipal. Alguém apareceu com um violão: depois de um sambinha ou outro, ele começou a tocar — e a cantar! — ‘Blue moon’. Tomados de entusiasmo etílico, por pouco não celebramos o insólito acontecimento jogando Etienne Filho dentro do lago. Depois subimos a pé a Avenida João Pinheiro e já somos apenas três, em companhia do poeta de nossa admiração. Vamos para o banco de sempre na Praça da Liberdade, puxar uma angustiazinha:

— Que sentido têm as coisas?

— Que somos nós, diante da eternidade?

A alma encharcada de literatura até o rabo. Mas o poeta não deixa por menos:

— Bom mesmo é mulher. [4]

Por certo, muitos já deduziram que o comentário “bom mesmo é mulher” foi feito por Vinicius de Moraes. O comentário do poeta não somente confere humor ao texto: ele quebra o que poderia ter se tornado uma digressão de tom filosófico. No mais, esse suposto tom filosófico havia sido insinuado de modo tímido. Tanto é assim que o narrador se valeu da expressão “puxar uma angustiazinha”. Houvesse de fato a intenção de se levar a crônica para reflexão mais densa, o substantivo “angústia” não estaria no diminutivo. O narrador está quase a mofar de qualquer sentimento de inquietação que pudesse ter tomado conta dos amigos alcoolizados.

Todavia, não nos esqueçamos de que a crônica, em sua trivialidade, pode nos remeter a reflexões drásticas, contundentes. Para exemplificar o que digo, cito trecho de “A lua quadrada de Londres”, também de Fernando Sabino:

Lembro-me de uma história — história que inventei, mas que nem por isso deixa de ser verdadeira. Era um marinheiro dinamarquês, de um cargueiro atracado no porto do Rio de Janeiro por uma noite apenas. Saíra pela cidade desconhecida, de bar em bar, e vinha voltando solitário e bêbado pela madrugada, quando se deu o milagre: nas sujas águas do canal do Mangue, viu refletida uma claridade difusa — ergueu os olhos e viu que as nuvens se haviam rasgado no céu, e o Cristo surgira para ele, braços abertos, em todo o seu divino esplendor. Fulminado pela visão, caiu de joelhos e chorou de arrependimento pela vida de pecado e impenitência que levara até então. De volta à sua terra, converteu-se, tornou-se místico, acabou num convento. E anos mais tarde, depois de uma vida inteira dedicada a Deus, o monge recebe a visita de um brasileiro. Aquele homem era da cidade em que se dera o milagre da sua conversão.

— O que o senhor viu foi a estátua do Corcovado — explicou o carioca.

Não diz a história se o religioso deixou de sê-lo, por causa da prosaica revelação. Não diz, porque me eximo de acrescentar que, na realidade, depois de viver tanto tempo uma crença construída sobre o equívoco, este equívoco passava a ser mesmo um milagre, como tudo mais nesta vida. [5]

O que o marinheiro supôs ser uma epifania nada mais era do que a estátua do Cristo Redentor. Ora, precisamente esse tema está presente no filme O planeta dos macacos, de 2001, do diretor Tim Burton. No enredo, os macacos veneram um deus, que chamam de Calima. Próximo do término do filme, é revelado que a palavra Calima nada mais é do que sílabas de um aviso de segurança que havia numa nave. Os macacos louvavam um engodo. Nesse momento, é inevitável que o espectador pense nas religiões que a humanidade tem edificado para si. As implicações de que a crença em um deus pode ser fruto de um engano são poderosas demais. Exatamente essas implicações estão presentes no breve trecho da crônica de Fernando Sabino. Por trás do humor e da leveza do texto dele, há uma profícua possibilidade de reflexão.

Antonio Candido, em texto intitulado “A vida ao rés-do-chão”, elogia a crônica como gênero. Mesmo assim, no primeiro parágrafo de seu texto, pondera: “Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse”. [6] Eu não veria como contrassenso cogitar-se atribuir o prestigioso prêmio a um cronista, embora isso de fato nunca tenha ocorrido. Mas o que faz a literatura ser o que é não são os prêmios que por ventura ela venha a receber. A literatura é feita do que somos; o que somos pode ser mostrado a partir da caça a uma baleia, a partir de um homem que vê a estátua do Cristo Redentor e pensa estar diante de uma epifania ou a partir de uma pulga.
___________

[1] Melville, Herman. Moby Dick. Tradução de Pericles Eugênio da Silva Ramos. Círculo do Livro. 1994. P. 535.

[2] Disponível em http://bit.ly/2feGame. Acesso em 13/09/2017.

[3] Sabino, Fernando. As melhores crônicas de Fernando Sabino. 5ª edição. Rio de Janeiro. BestBolso. 2015. Pp. 46 e 47.

[4] Idem. Pp. 58 e 59.

[5] Ibidem. Pág. 69.

[6] Candido, Antonio. A vida ao rés-do-chão. Disponível em http://bit.ly/2fbrODb. Acesso em 14/09/2017. 

Futebol, arte, ciência

O Eurico Miranda já disse que “esse negócio de ética é coisa de filósofos”. O filho dele, Eurico Angelo Brandão de Oliveira Miranda, em entrevista concedida ontem, queixou-se de legado a ser deixado para as gerações vindouras. Com relação à reclamação contra o gol ilegal marcado por Jô, o Vasco está certo em protestar, pois o gol foi mesmo com a mão. No mais, a família Miranda está se queixando de algo que não oferece — lisura. O legado deles para os que virão não prima pela ética.

Deixando de lado essas questões, a fala de Eurico Miranda dita há tempos, a de que “esse negócio de ética é coisa de filósofos” é o reflexo da noção que se tem de que áreas do conhecimento como a filosofia ou a literatura são coisas puramente mentais, desvinculadas da vida prática, do cotidiano. Paira em muitos o pensamento de que filosofia ou literatura não dizem respeito às vivências das pessoas no torvelinho dos dias.

Negar os benefícios da filosofia ou da literatura, ou, num sentido mais amplo, negar os benefícios da área de humanas por desatinos que já praticaram seria o mesmo que negar os benefícios da ciência porque foi a partir da ciência que construíram bombas atômicas e demais armas de guerra. Não penso duas vezes em me valer de um remédio se um dente esboça dor; não penso duas vezes em me valer de literatura ou de filosofia se desejo sutilizar meu espírito.

A vida por si é recalcitrante. As exatas e as humanidades aí estão para que nos valhamos delas, estejamos em dificuldades ou não. Ressaltar o que já produziram de pior sem reconhecer os benefícios que têm é obtusidade, ardil ou gigantesca ignorância quanto ao que tanto a arte quanto a ciência têm de importância ao tornar nossas vidas, na medida do possível, suportáveis. 

domingo, 3 de setembro de 2017

Água e terra

Habito a Terra.
Ela é meu hábito.
Em meu hábitat,
fluo, deixo fluir.
Sou terra,
sou água;
piso firme
e sonho alto:
sou equilíbrio. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Reciprocidade

O gerente  de conta do banco fraudou o cliente, 
que é dono de posto de gasolina.
O dono do posto de gasolina fraudou 
o gerente  de conta do banco, 
que abastecia o carro.
... E foram fraudados para sempre... 

Brasília

A impressão que tenho de Brasília é a de que a cidade é feita somente de prédios, de carros e de avenidas. Tenho dificuldade em imaginar um cidadão de Brasília indo à mercearia, ao banheiro, saindo para se divertir. A parte da cidade que foi planejada carece de espontaneidade. Falta calor humano a ela. 

Apontamento 370

O dia em que tudo o que a gente sabe serve para algo definitivo vem. Enquanto não chega, sigamos aprendendo o que um dia vai servir para algo definitivo. 

Haicai 59

Deixa de ser cabeça oca.
Lugar de língua que descansa
tem de ser no céu da boca. 

Haicai 58

O que é a fé?
Quase acho resposta
no gole de café. 

Haicai 57

Leio Bob Dylan.
A rodoviária é fria.
Preciso é de lã. 

Haicai 56

Alguma coisa ouço.
Parece voz sofrida
vinda do calabouço. 

Haicai 55

Gosto de tudo que nada,
seja de água doce,
seja de água salgada. 

Haicai 54

A Lua sobre Paracatu.
Meu destino é Brasília.
Deveria ser teu corpo nu. 

Haicai 53

A Lua sobre Paracatu.
Num céu de estrelas,
o firmamento está nu. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Apontamento 369

A questão não é de as pessoas lerem mais — é de lerem. 

When in Rome

No fim de Spotlight, filme sobre o qual escrevi recentemente, fica-se sabendo que cardeal que acobertava pedofilia na cidade de Boston, nos EUA, foi transferido, em 2002, para Santa Maria Maggiore, prestigiosa basílica na hierarquia da igreja católica em Roma. A conclusão triste a que se chega depois de assistirmos ao filme é a de que fosse todo padre envolvido com pedofilia encaminhado para Roma, não haveria igrejas o bastante na cidade para abrigá-los. 

sábado, 26 de agosto de 2017

Desistência nacional

Não sou como os que nunca desistem.
Queria ser.
Eu desisto muito.

Já desisti
das palavras,
de planos,
de mim,
de ti.

Há desistências permanecentes.
Outras são vaivém.

Hoje, desisto de meu país.
Sou tão sombrio quanto ele.
Hoje, desisto do brasileiro:
parte de mim desistindo de mim
e de outros milhões. 

Convite

Corpo e verbo

Não sou somente palavras.
Meu corpo é teu. 
Aceita o que sou,
dá-me o que és.
Sejamos o corpo da palavra,
a palavra do amor,
o amor do corpo. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Linhas

Spotlight

Spotlight (2015) conta a história do trabalho de quatro repórteres que investigaram abusos sexuais de padres contra crianças em Boston, nos Estados Unidos. O diretor é Tom McCarthy. O roteiro é dele e de Josh Singer. No Brasil, o filme recebeu o título de Spotlight: segredos revelados. A denúncia inicial (houve outras posteriormente) foi publicada em 2002 no jornal Boston Globe, em trabalho dos jornalistas Matt Carroll, Sacha Pfeiffer, Michael Rezendes e Walter V. Robinson.

À medida que o número de padres envolvidos nos abusos vai aumentando, o filme toca feridas, mencionando o acobertamento da igreja católica quanto ao comportamento abusivo dos religiosos e mostrando que há quem lucre a partir dos graves delitos de que o filme trata. Enquanto o número de padres pedófilos vai se agigantando, há o inevitável momento em que o espectador encara a questão de que Boston é só um microcosmo das atrocidades de parte do clero.

O roteiro acerta ao humanizar as vidas dos repórteres e as das vítimas que dão depoimentos para os investigadores do Boston Globe. Outro acerto louvável é o tom do filme, que, não sendo panfletário, não deixa, ao mesmo tempo, de contundentemente expor esse câncer da igreja católica. Spotlight é maduro, corajoso. A denúncia que realiza não soa rançosa nem soa como “vingança” contra a igreja católica.

Além disso, o filme evidencia a importância de algo que tem se tornado cada vez mais raro nos meios de comunicação: a matéria investigativa que demanda tempo, que foge da urgência diária da correria das redações. Não sei se as empresas do exterior têm investido em matérias que precisam de fôlego para serem realizadas (as daqui não têm). Do que sei, é que Spotlight joga luz sobre a nobreza que o jornalismo pode ter. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Apontamento 368

Que haja amor sem ingenuidade, pois ela estraga não somente o amor. O amor de que falo implica ausência de ingenuidade, que não é a mesma coisa que falta de humor ou falta de senso de pureza.

O mundo sempre foi um lugar violento, desonesto, desleal, perigoso. Não saber disso ou não se precaver contra isso é de uma ingenuidade que pode ser fatal. Não ser ingênuo não torna ninguém imune aos perigos do mundo. Todavia, é menos arriscado viver com a noção das armadilhas do caminho.

Para muitos, não há lugar para o amor num mundo tão conspurcado e burro. Contudo, o amor pode ser encarado como rebeldia, ato de coragem, ousadia, não rendição ao que o mundo nos oferece de ruim todos os dias. Amor é força, é energia. Aquele que tem a coragem de exercer, sem ingenuidade, essa força dá a mais poderosa e loquaz negativa contra o que o que há de estúpido.

Que se supere a ingenuidade, que se busque a maturidade, que a maturidade traga amor. Perigos estão à espreita, a tolice grita. Num cenário em que a selvageria dirige carros, publica em redes sociais ou mata o próximo por ninharias, amar é resistência. 

Perfil

O silêncio dele é imbecil.
O barulho é burro.
A voz é gritante. 
Os textos são em caixa alta.
O ódio é maiúsculo. 
A ignorância é em negrito.

Não sabe que é tolice
o nome do que se orgulha.
Desconhece matizes, nuanças,
sutilezas, semitons.
A disciplina que o excita
é fardada, bate continência.
Ele não sabe que não sabe quem é.

Quando sofre,
a culpa é do outro.
Quando o sexo não se eleva,
a culpa é do outro.
Quando é rico,
tem nojo de pobre.
Quando é pobre,
tem nojo de pobre.

Tosquiaram-no, mas ele não sabe.
Está nu, mas é bufante.
Inchado e doente,
bafeja a morte,
alicia os iguais,
alija os diversos.

Ama o país;
quer construir um muro para dividi-lo.
Ama o estado;
quer construir um muro para dividi-lo.
Ama a cidade;
quer construir um muro para dividi-la.
De tijolo em tijolo, faz ruir.
De tijolo em tijolo, está ruindo. 

domingo, 20 de agosto de 2017

Ventos

Não cogito o que
os ventos de agosto trarão. 
Eu me contento com agosto
trazer ventos.
Se por ventura 
me soprarem versos,
tu saberás. 

Vamos para o Rio?...

Love

A arte ruim explica tudo. Isso não quer dizer que a arte boa não explique nada. Precisamente por ser arte, ela não tem a obrigação de explicar, mas, é claro, precisa fazer algum sentido. Quando li a sinopse de Love (2011), disponível na Netflix, eu me interessei pelo filme. Comecei a assisti-lo numa madrugada qualquer. O sono veio. Deixei para assistir numa outra ocasião.

Terminei há pouco. Love é humanista, a despeito da cara de ficção científica que tem. Funciona como um filme de ficção científica, mas como toda obra de arte boa, não importa o gênero nem o meio de que se valha, encerra uma verdade humana. Love explica pouco e sugere muito. Todavia, o que é sugerido autoriza algumas possíveis conclusões ou interpretações.

William Eubank é diretor e roteirista do filme. Lee Miller [Gunner Wright] é astronauta e está na estação espacial quando perde contato com a Terra. A partir daí, ele tenta, no ambiente claustrofóbico em que está, preservar a sanidade. A certeza do não contato com a Terra é definitiva quando é sugerido que um evento catastrófico dizimou a humanidade. Miller, na órbita do planeta em que nascera, é o último humano.

Em determinado momento, ele se depara com um livro, que é o diário de um soldado que havia lutado na Guerra de Secessão, nos EUA. Tendo recebido autorização para abandonar seu regimento, o soldado deixa o campo de batalha com a missão de investigar um estranho objeto numa cratera.

À medida que eu ia assistindo ao filme eu ficava me perguntando como o roteiro amarraria eventos tão dispersos entre si. Na abertura, há imagem da Terra, mostrada parcialmente; logo a seguir, cenas da guerra civil americana; pouco minutos depois, o espectador está novamente no espaço (esses momentos iniciais acabaram me remetendo àquele imenso corte temporal de 2001: uma odisseia no espaço, quando um osso arremessado por um símio se “torna” uma nave no espaço). Enquanto Miller tenta manter-se racional na estação espacial, há cenas de pessoas dando testemunhos simples sobre vivências que tiveram. Nos minutos finais do filme, tudo isso faz sentido (ou parece fazer).

Os átomos de que cada um é feito são os átomos de toda a humanidade, de tudo o que existe. Em seu desfecho, é como se Love fosse a versão imagética das belas sugestões de Walt Whitman, as quais afirmam que cada um é todos os outros. Não bastasse a beleza disso por si, a poética e bonita sequência final do filme relativiza o micro e o macro, além de mergulhar o homem numa poderosa beleza atômica e universal. 

Apontamento 367

Esbravejar, vociferar, dizendo que o brasileiro é passivo e que aceita tudo é só outro modo de aceitar tudo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O marqueteiro do Acre

Os meios de comunicação criaram para Bruno Borges o estranho epíteto de “o menino do Acre”. Quando li a expressão pela primeira vez, pensei se tratar de uma criança. Ao ler, há mais ou menos cinco meses, matéria sobre Bruno, logo fiquei sabendo que ele tem vinte e cinco anos. Achei a alcunha de “menino” inapropriada para uma pessoa dessa idade.

Diante da matéria, pensei em duas possibilidades: ou Bruno era louco ou se tratava de alguma armação toscamente fantasiada de misticismo. Quando de seu “desaparecimento”, cogitou-se a possibilidade de ele estar morto. Na época, pensando na agonia da família dele, torci para que o “menino” estivesse vivo. Está. Voltou hoje para casa.

Segundo texto veiculado no G1, o livro de Bruno Borges, lançado pela editora Arte e Vida, intitulado “TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento”, é muito ruim. Cauê Muraro, autor da resenha da obra de Bruno publicada no G1, escreveu: “Ele tem aversão a sexo, gula e crase. Faz zero questão de parecer modesto (cita a si mesmo, inclusive)”. Parece que os revisores da Arte e Vida quiseram manter o texto dele imaculado. Ao longo do texto, Muraro menciona outros escorregões gramaticais de Bruno Borges. Não bastassem questões técnico-gramaticais, ainda de acordo com o texto publicado no G1, fazer sentido não é grande preocupação de Bruno.

O livro dele está vendendo bem, segundo o que a mídia tem divulgado. Em maio deste ano, Marcelo Ferreira, de vinte e dois anos, amigo de Bruno, foi detido pela polícia por crime de falso testemunho. Na casa de Marcelo, havia dois contratos. Um deles era sobre porcentagem de lucros com a venda dos livros de Bruno. Outro envolvido seria Bruno Gaiote, em cuja casa havia móveis do quarto de Bruno Borges. Ninguém está preso.

Se encarado com olhar estritamente financista, o plano de Bruno Borges é perfeito. Ele conseguiu visibilidade nacional, conseguiu despertar curiosidade para um livro que nem havia sido lançado e tem conseguido, de acordo com os meios de comunicação, fazer com que seu livro venda bem. Num prisma estritamente marqueteiro, Bruno Borges é um sucesso.

Não há nada de errado em estratégias de marketing. Além do mais, Bruno não é o primeiro a se valer de um engodo para ganhar dinheiro. Todavia, sem querer soar ingênuo, há uma questão ética que deve ser levada em conta. Ele posa de místico, quando na verdade é um excelente estrategista de marketing. A questão que se impõe: é preciso enganar para vender?

Investir na credulidade, no medo, na burrice, em produtos de fácil consumo e em pseudomistérios não é garantia de êxito, mas, levando-se em conta somente critérios monetários, pode ser um belo começo. Bruno sabe disso. Poder-se-ia alegar que o azar é de quem acredita em balelas de falsos religiosos, de pseudomísticos ou de gurus da autoajuda, gastando dinheiro com produtos desse teor. Mesmo havendo muita gente que acredita nesse filão, isso não anula a questão ética de que os produtores desse mesmo filão sabem que vendem uma mentira, lucram com um embuste.

O caso de Bruno será debatido nos cursos de publicidade e propaganda. Não consigo levar em conta unicamente o caráter lucrativo da empreitada dele. Todo mundo sabe que dinheiro é bom e que cada um se vale do que é capaz para consegui-lo. Bruno deu-se bem ao contar com as crendices de quem o considera místico ou com os delírios dos que acreditaram que ele teria sido abduzido. No futuro, quando ninguém mais falar dele nem dos livros dele, haverá outros crédulos e outros Brunos fomentando um mercado em que sempre há tapeadores e iludidos. Em qualquer época, existem espertalhões com a manha da TAD: Teoria da Absorção do Dinheiro. 

Água e espelho

A água cristalina me reflete;
é mais fugidia do que eu.
O espelho cristalino me reflete;
sou mais fugidio do que ele.

A água cristalina me reflete
enquanto se move.
O espelho cristalino me reflete
enquanto me movo.

A água se move:
meu reflexo é difuso.
O espelho é estático:
eu sou difuso.

A imobilidade do espelho,
o movimento da água.
Refletido em ambos,
escorro pelo tempo. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ao leite

Toda vasilha, panela, caçarola, vasilhame ou continentes similares vêm com um acurado detector de distração. O dispositivo é acionado para que o leite fervido inunde o fogão. 

Nosso futebolzinho

Deve-se olhar para as eliminações de Atlético e de Palmeiras na Libertadores, ontem, num panorama maior. Num menor, nenhuma das duas equipes é forte. Tanto é assim que foram eliminadas por times pequenos. No panorama maior, Atlético e Palmeiras são reflexo do ruim futebol brasileiro.

O Corinthians tem sido exceção caso o comparemos com as demais equipes do Brasil. A seleção, treinada por Tite, passou a ter bons resultados nas eliminatórias para a Copa do ano que vem. Todavia, Corinthians e seleção brasileira não são o bastante para que não se enxergue o amadorismo de nosso futebol, que, ademais, é reflexo do que somos.

Basta acompanhar qualquer uma das rodadas do campeonato nacional para se perceber em campo o horrendo jeitinho brasileiro, a falta de criatividade e a ausência de ousadia. O mundo inteiro já percebeu que talento, por si, não é o bastante. O que o futebol daqui tem é só um pouco de talento.

O esquemão CBF/Globo está falido há tempos. A derrota para a Alemanha na Copa de 2014 evidenciou essa falência. Como é fácil perceber, o futebol nos gramados é tão incompetente e não profissional quanto as maracutaias de cartolas e de empresários. Não é ficando de joelhos que se resolve uma estrutura viciada e vergonhosa. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Apontamento 366

Na produção de conhecimento, não raro, todo um edifício é construído quando um simples cômodo bastaria. (Não custa lembrar que há longos edifícios em que cada cômodo é imprescindível.) 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Haicai 52

Com amor, sem alarde.
Sendo assim, eu convido:
vem fazer amor à tarde. 

Haicai 51

Hoje foi dia de façanha.
Com zelo e com gosto,
fiz a primeira lasanha. 

Fome e vírgula

Ela escreveu para ele: “Vem comer, amor. Vem comer amor”. Ele respondeu: “A ausência de vírgula na segunda frase indica que vou comer amor porque a lasanha foi feita com amor ou indica que vou comer amor porque vou comer você?”. Ela respondeu: “Com vírgula ou sem, comendo com amor, coma o que quiser”. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Inscrição na Bienal confirmada

Conforme postagem que fiz recentemente, vai haver sessão de autógrafos de meu mais recente livro, Amor de Palavra, na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, no dia sete de setembro, às 13h. Minha inscrição no evento foi confirmada há pouco.

Para quem ainda não adquiriu o livro, ele está à venda nos seguintes locais: 

• Livraria Nobel, no Pátio Central Shopping
• RR — Renato Representações, no prédio da Rádio Clube
• A Musical. Rua José de Santana 436 (Centro)

Há também exemplares do Dislexias, meu livro anterior. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Corinthians vence mais uma

Eficácia. Essa é a palavra que define o time do Corinthians, que parece ter decidido que nunca mais vai perder. Ainda que não apresente um futebol que possa ser chamado de bonito, a absurda eficiência do time paulistano fez mais uma vítima há pouco, no Mineirão — o Atlético/MG.

Rodada após rodada, jogo após jogo, há meses todos estão se perguntando quando o Corinthians vai perder; o time não perde. Hoje, no Mineirão, a despeito do incentivo da aguerrida torcida atleticana, o líder do campeonato venceu mais uma vez, mesmo tendo chutado menos a gol, o que comprova a capacidade de decisão do time e a excelente fase do goleiro Cássio.

A eficácia do Corinthians está ligada ao entrosamento e à disciplina tática. Jogando com calma, ciente de suas deficiências e consciente de seus pontos fortes, o time, treinado por Fábio Carille, tem tudo para ser o campeão do torneio. A última rodada do primeiro turno será no fim de semana; é cedo para vaticinar que o campeonato já é do Corinthians. Todavia, se a equipe mantiver o equilíbrio fatal que tem mostrado até aqui, dificilmente não será o campeão brasileiro deste ano.

Segundo o divulgado pelo Premiere, durante a transmissão da partida, o Atlético/MG teria tomado a decisão de jogar no Mineirão em busca de “mudança de ares”. O Corinthians não deu a mínima para os ares da Pampulha, fazendo com que o time de BH perdesse mais uma em casa. 

Sessão de autógrafos no Rio de Janeiro

No mês que vem, no dia sete de setembro, vai haver sessão de autógrafos de meu livro Amor de Palavra na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Será às 13h. 

Bora pro Rio?... 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Desinência -m

Até,
atém.

Até,
atêm.

Bê,
bem.

Cê,
cem.

Ene,
Enem.

Mi,
mim.

Ri,
rim.

Se, 
sem

Sê,
sem.

Si,
sim.

Só,
som.

Te,
tem.

Tê,
têm.

Vê,
vêm.

Vi,
vim.

Ame.
Fim. 

Culinária

É o primeiro 
dia do mês.
Tempere
a gosto. 

Sentindo na pele

O deputado federal Wladimir Costa (SD-PA) tatuou o nome de Temer no ombro. Estão dizendo que a tatuagem seria daquelas que saem rapidinho, muito comuns em praias. O político declarou que a tatuagem é permanente; segundo o InfoMoney, declarou ainda que fará outra, essa com os dizeres “Temer, o único estadista do Brasil”. O hiperbólico “único” está em sintonia com o que Wladimir Costa disse sobre a tatuagem já feita: “Cada um com suas paixões”. Estava certo quem disse que o amor é coisa de pele. 

domingo, 30 de julho de 2017

A história por trás da foto (107)


Hoje pela manhã, fui acordado por estas duas maritacas, quando pousaram na antena de TV que fica no quintal do vizinho. A princípio, pensei que logo fossem embora. Durante algum tempo, ainda deitado na cama, fiquei escutando o que diziam uma para a outra.

Curioso para saber como eram as criaturas que diziam aquelas palavras, abri a janela do quarto. As maritacas me olharam, continuaram conversando. Fechei a janela, voltei para a cama. O bate-papo delas prosseguiu animado.

Enquanto conversavam, eu ficava pensando se haveria tempo de eu fotografá-las. Em vez de pensar, eu deveria logo ter ido pegar a câmera. Ao pegá-la, eu teria de retirar a lente que estava nela e de nela acoplar a lente própria para registros de aves e de pássaros.

Como o diálogo das maritacas seguia animado, eu me levantei, peguei a câmera, troquei a lente e fui para o quintal, fingindo displicência, a fim de não espantá-las. Pode ser que esse cuidado nem tivesse sido necessário; queriam é ser fotografadas. Tanto que, antes de voarem, agradeceram-me. 

Com gosto

Gostou; passou a se envolver. 
Envolveu-se; passou a gostar. 
Pode se envolver e gostar; 
pode gostar e se envolver. 
Gosta (de si) quando há gosto.
Quando há envolvimento, gosta (de si).
Gosto e envolvimento; 
envolvimento e gosto.
Gostando, fica envolvente; 
envolvendo-se, torna-se gostosa. 

sábado, 29 de julho de 2017

A história por trás da foto (106)




Ontem, graças aos amigos Roney, Vicente e Clarindo, que trabalham no mesmo lugar em que eu, pude fotografar pela primeira vez um filhote de urubu. Roney é que sabia onde o ninho está. Prestativo, me levou até o local, que fica ao lado de onde trabalho.

Quando nós quatro chegamos lá, o que suponho ser a mãe (pai?), que estava por perto, deixou o ninho, que fica no chão, e voou para uma árvore próxima. De lá, ficou nos olhando. Depois, eu a fotografei durante seu voo. Nesta postagem, duas fotos do filhote e duas da mãe (ou do pai).