sábado, 20 de maio de 2017

"Thanks for sharing"

Ovídio, no livro “A arte de amar”, escreve sobre o amor de modo bem didático. A obra é dividida em três seções: A arte de amar, Os remédios para o amor e Os produtos de beleza para o rosto da mulher. Na segunda seção, segundo tradução de Dúnia Marinho da Silva, Ovídio escreveu: “Evite reler as cartas de amor de sua amante que você guardou; almas firmes ficam abaladas quando releem tais cartas. Jogue tudo impiedosamente no fogo”.

Se precisamos nos livrar de algo, que a destruição do que nos liga a esse algo seja radical. A premissa, que, na ótica de Ovídio, vale para o amor, vale também para o vício, segundo a abordagem de “Terapia do sexo” (“Thanks for sharing” é o título original), do diretor Stuart Blumberg, que é também o roteirista, ao lado de Matt Winston.

O filme já seria digno de atenção pelas presenças de Mark Ruffalo (que interpreta Adam) e de Tim Robbins (no papel de Mike). Mas há ainda a bela atuação de Josh Gad (que interpreta Neil). Também no elenco a atriz Gwyneth Paltrow (na pele de Phoebe) e a cantora Pink (no papel de Dede) — esta, em louvável atuação.

Adam, Mike e Neil são amigos que frequentam um grupo de pessoas que têm um vício sobre o qual há muita incompreensão e muita piada ruim, que é o vício em sexo. As sessões são muito similares às que ocorrem no grupo Alcoólicos Anônimos. Cada um dos frequentadores é convidado a compartilhar (daí o título original do filme) as experiências por que passou relativas ao vício. 

Há linhagens de filmes que não têm (ou parecem não ter) grandes pretensões. Parecem não realizar grandes reflexões, parecem não estar preocupados em levar o espectador a olhar com mais cuidado para si mesmo e para os outros. “Terapia do sexo” pertence a essa linhagem. Em sua não pretensão, acaba, paradoxalmente, levando a uma reflexão sobre a natureza do vício, não importa qual ele seja (o vício em sexo não é o único abordado no filme).

É um daqueles filmes em que é fácil nos afeiçoarmos aos personagens, que são, por assim dizer, gente “comum”; é fácil nos identificarmos com eles. Poderiam muito bem ser um de nós ou um de nossos amigos. A convivência de Adam, Mike e Neil — e a de Dede com Neil — é um terno e bonito retrato da amizade. Sem derrapar para o melodrama, os personagens vivem o pensamento de que, dependendo do que se queira, conseguir sozinho é difícil, mas se houver a ajuda de amigos, algo pode ser feito.

“Terapia do sexo” é um belo filme. Trata com maturidade e responsabilidade as agruras e os dramas de quem lida com vícios. Fica muito bem em companhia de obras-primas como “Despedida em Las Vegas”  e “O voo”. São filmes que conseguem extrair o que temos de mais humano e frágil, sem deixarem de mostrar que, mesmo diante de um fracasso, talvez haja um recomeço. 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Espaço e tempo

Eu te amo
em cada segundo 
dos meus segundos. 
Mas segundos 
são convenções;
eu poderia dizer 
que te amo,
por exemplo,
em cada minuto 
dos meus minutos.
Não há instante em que 
eu não esteja te amando.
Se digo que te amo
em cada minuto,
não estou fatiando
o amor que sinto.
Em convenção
de tempo,
esse amor habita
cada segundo meu;
em convenção
de espaço,
mora em cada
centímetro que tenho.
Mas não há convenção
que resista à tua chegada.
O tempo deixa 
de ser o do relógio.
O espaço deixa
de ser o da régua.
Quando tu chegas,
há nossos corpos,
atemporais
e
imensuráveis. 

Lingual

Coloco, sim,
palavras 
em sua boca.
Com a minha. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"A chegada"


“A chegada” lida, dentre outras coisas, com uma fascinante questão linguística, que é a de que o idioma que falamos molda o modo como pensamos. Denis Villeneuve, o diretor, explora de modo brilhante, levando-a a máximas consequências, essa questão. O roteiro é de Eric Heisserer. O filme é baseado no conto “Story of your life” escrito por Ted Chiang.

Louise Banks (Amy Adams) é a linguista contratada pelo governo americano para verter para o inglês o que extraterrestres, dispersos em doze pontos da Terra, estariam dizendo com a linguagem deles. Ela conta com a ajuda do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner). No filme de Villeneuve, Ian não tem sua mente afetada pelo modo como os extraterrestes lidam com a linguagem, por se deter ele sobre problemas relacionados à ciência que domina.

É Louise que tem sua mente radicalmente alterada a partir do momento em que vai se dando conta de como funciona a linguagem dos alienígenas. Nesse sentido, “A chegada” leva a possibilidades ilimitadas a ideia de que o idioma que falamos (ou a língua estrangeira que decidimos aprender) muda o modo como pensamos e como percebemos o tempo.

Todavia, o enredo do filme não está ligado à ideia de superpoderes. Nada disso. À medida que Louise vai decifrando como funciona a linguagem dos extraterrestres, vamos tendo contato com um drama profundamente humano por que ela passa, que é a morte da filha quando esta ainda é adolescente, tendo sido vítima de câncer.

“A chegada” é um filme de ficção científica que tem a sensibilidade de compreender dramas e dores em essência humanos, de entender que as escolhas que fazemos atendem a ditames atemporais que podemos não saber explicar, que são poderosos demais, mas que, talvez, exatamente por isso, ou seja, por serem atemporais e poderosos demais, entregamo-nos a escolhas que em nenhum contexto deixaríamos de fazer. 

Cama

A cama faz sentido quando é dividida contigo. Se aqui estás, a cama é plena, una, nua. Ela se realiza ao comportar dois. Eu me realizo se nela estamos.

Somos dois na cama. Jorram o deleite, a carícia, a saudade. O gosto do amor está no corpo. Está no gozo. Está na pele. Está na umidade que anseia.

A cama sustenta. Nós levitamos: é a cama que nos leva, que nos eleva, que se eleva. O amor é sobre a cama, é sobre corpos. O amor é sobre nós, que nos sabemos sobre a cama.

Nosso amor mora onde estejamos. A cama é encontro de amor, de confissão, de corpo percorrido, conhecido, conhecendo-se.

A cama acolhe, chama, incendeia-se. Nós somos amor de fogo e de cama. Que não se faz somente nela. Mas que na cama precisa despertar. 

Irmandade

Estou relendo “A montanha mágica”, do Thomas Mann, e “A insustentável leveza do ser”, do Milan Kundera. Enquanto eu percorria Kundera, ocorreu-me pensar em Mann. Segundos depois, passo os olhos no seguinte trecho de “A insustentável leveza do ser”, na tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca: “De fato, contra o mundo de grosseria que a cercava, tinha uma só arma: os livros que tomava emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann”. 

Texto em mãos

Eu te transformo em poesia 
porque tu me transformas em poesia.
Palavras para te regar,
para te deixarem molhada.
Florescida e florescendo,
tu estás em meus braços.
Renasço para te escrever. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Apontamento 363

Um dos personagens criados por Chico Anysio certa vez usou o termo “Istoeja”, amálgama de IstoÉ e de Veja. No contexto, o personagem queria dizer que as revistas seriam, em essência, a mesma coisa. Na época, embora eu tenha gostado do neologismo, não concordei com ele, pois os semanários tinham, então, linhas editoriais diferentes. Hoje, o “jornalismo” feito por ambas as revistas é tão idêntico que a capa de uma pode estar na outra. 

Apontamento 362

Quando termino de ler um livro de que gostei, o impulso é começar releitura mal terminada a leitura. No meu caso, é somente impulso; não sou de fazer releitura logo após leitura. Todavia, há algo que tenho dificuldade em fazer quando termino de ler livro de que gostei demais, que é guardá-lo na estante.

A vontade é de deixar o livro por perto, de continuar tendo-o nas mãos, de folheá-lo. É um modo de continuar convivendo com o livro, mesmo a leitura já tendo sido feita. É como se isso fosse um modo de reter o que me foi transmitido por intermédio da leitura realizada. Além do mais, quando se ama, quer-se por perto. 

Em claro

Faz parte de mim.
Faz arte em mim.
Eu te leio.
Eu te escrevo.
Cuido por amor.
Cuido por amar.

Fazer amor claro às claras.
Tão claro quanto o clarão do luar,
tão claro quanto clara, 
tão genuíno quanto gema. 

Para onde?

Embora eu não goste, foto tirada com celular. Eu não estava com minha câmera quando me dei conta da luz do Sol passando por uma janela e se projetando sobre a escada. 

Entrevista para a Clube AM

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A história por trás da foto (104)



Graças ao amigo Luiz Araujo, tive hoje a oportunidade de fotografar ave que eu ainda não tinha em meu portfólio — um urutau. A ave é uma espécie de campeã da discrição, pois, uma vez tendo achado galho em que pousa, fica praticamente imóvel por horas. Além dessa quase total imobilidade, as cores das penas têm os mesmos tons de galhos de árvores, o que torna difícil avistar um urutau.

Hoje à tarde, o Luiz me enviou mensagem, dizendo que havia um deles numa árvore que fica na avenida Paranaíba, quase na esquina com a rua Outro Preto. Fui correndo para lá. Cheguei, fui procurar o urutau, mas sem sucesso. Foi quando um comerciante me mostrou em que galho a ave estava. Pude tirar várias fotos. Ao Luiz, muito obrigado pela generosidade ao me dizer aonde eu poderia ir para fotografar o espécime. 

Sonho pop

Na noite que passou, sonhei que a banda Information Society, sucesso aqui no Brasil na década de 90, havia regravado "Armadilha", do Finis Africae; a canção foi sucesso em meados da década de 80. No sonho, curti demais a regravação do Information Society, tendo me surpreendido a excelente pronúncia do vocalista.

A rigor, o trabalho, em vinil, era todo de canções brasileiras. Não me lembro de todas elas, mas, além de "Armadilha", havia "Amor, meu grande amor", da Ângela Rorô, também sucesso com o Barão Vermelho. Tanto "Armadilha" quanto "Amor, meu grande amor" tinham a pegada eletrônica do Information Society. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

O peso de Galileu

Galileu Galilei (1564-1642) afirmou que dois corpos, no vácuo, com massas diferentes, se deixados cair de uma mesma dada altura, ao mesmo tempo, atingiriam o chão ou outra superfície qualquer também ao mesmo tempo. Assim, para o cientista, uma pena e uma bala de canhão largadas simultaneamente em queda no vácuo atingiriam determinada superfície no mesmo instante devido à ação da gravidade. Só que não havia como o cientista simular um ambiente em que não houvesse vácuo, ou seja, um ambiente em que não houvesse a interferência do ar durante a queda dos objetos. A Nasa simulou um ambiente assim, comprovando de modo empírico que Galileu estava correto na conclusão dele.

Tenho fascínio pela física e pela astronomia. Suponho que isso vem da adolescência, quando era muito comum eu ler textos sobre ciência e revistas de divulgação científica. Há beleza demais no Universo e no esforço humano de interpretá-lo à luz da ciência. Vídeos como esse atestam que não há frieza na ciência, mas emocionante desvelamento. O uso que se faz dela pode ser frio, mas a força da palavra também pode ser usada para aniquilamento de vidas. A ciência é tão inspiradora quanto a arte. Olhar para o céu pode tocar a mente tanto do cientista quanto do poeta. A simples contemplação das estrelas em noite escura e sem nuvens já é o bastante para o maravilhamento do que somos. Desse maravilhamento, alguns comporão fórmulas; outros comporão versos. 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Quase infantil

Rio nasceu,
foi para o mar.
Eu nasci,
fui para amar.

Rio nasceu,
foi para o mar.
Eu nasci
foi para amar. 

Ninguém

Nem o religioso
nem o imperador.

Nem o gênio
nem o milionário.

Nem o gari
nem a Nasa.

Nem o empresário
nem o marceneiro.

Nem a Rosa Cruz
nem o imbecil.

Nem o professor
nem o ateu.

Nem o sábio
nem o louco
nem o biólogo
nem a secretária
nem o padeiro
nem Choderlos de Laclos
nem o médico
nem Joaquim
nem Camila
nem Mateus
nem Marcos
nem Lucas 
nem João.

Ninguém sabe.
Ninguém soube
se o caminho da vida
continua ou termina
começada a morte. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Igreja católica diz não a proposta de Temer

Recentemente, o papa disse não para Temer. Francisco recusou convite do presidente para que viesse ao Brasil. Em texto divulgado pelo Vaticano, o chefe da igreja católica alega que não virá porque os mais pobres pagam o preço por “soluções fáceis e superficiais para crises”.

O episódio não é simples recusa diplomática para um convite, já que o argentino alega que não virá ao país por causa dos rumos que a equipe de Temer deu à economia, em que os mais pobres serão os prejudicados. Não bastasse, vale lembrar que o Vaticano disse não a um convite feito pelo presidente de uma das maiores nações católicas do planeta.

No plano local, a igreja também se posicionou quanto às ideias da equipe de Temer, em especial contra a Reforma da Previdência. Claudio Nori Sturm, bispo da diocese de Patos de Minas, emitiu documento em que menciona a diminuição dos direitos que o governo de Temer quer implementar. Na nota, o chefe local da igreja católica sugere que as paróquias fechem as portas na sexta-feira, como protesto contra a decepante reforma da previdência. 

A história por trás da foto (103)

Ontem à noite, em companhia de amigos, fui mais uma vez ao sítio do Bosquinho. Um dos objetivos era fotografar as estrelas.

A impressão que tenho é a de que, se eu pudesse, faria somente fotos noturnas. Há algo nas longas exposições, necessárias para se fotografar, dentre outras coisas, as estrelas, que me atrai demais. É que elas, as longas exposições, são um modo de brincar não somente com a luz e com a técnica fotográfica, mas também com o tempo. Também por isso, lidar com fotografia me fascina.

O tempo de exposição desta foto é de quarenta e seis minutos. Na prática, isso significa que, uma vez tendo sido o obturador disparado (o obturador é o botão que se aperta para que a foto seja tirada), a câmera ficou tirando uma única foto durante esses quarenta e seis minutos. Obviamente, o equipamento estava sobre tripé. O disparo é feito com um cabo conectado à máquina fotográfica, de modo que não preciso ficar com o dedo no botão dela enquanto a foto é tirada.

Os fachos luminosos na imagem são gerados por causa da rotação da Terra. Recapitulemos: a “duração” da foto foi de quarenta e seis minutos. Nesse tempo, a Terra girou. Girando, causa a sensação de que as estrelas mudaram de lugar. A rigor, mudaram, mas isso não importa agora. O que importa é que os fachos são produzidos graças ao movimento de rotação da Terra sobre o próprio eixo. Quanto maior a “duração” do registro, maiores serão os fachos.

Para esse tipo de foto, é bom que se esteja fora de áreas urbanas. Quanto mais longe das cidades, melhor, pois luzes artificiais interferem na imagem. Tendo achado um lugar assim, caso haja luzes artificiais por perto, como, por exemplo, as da casa de uma fazenda, é bom que sejam apagadas. Apague as luzes e acenda as estrelas. É preciso ainda não haver nem Lua nem nuvens.

Muito obrigado ao Bosquinho e à Silene, esposa dele, que tão bem nos receberam no sítio. Espero voltar em breve, seja para um bate-papo, para fotografias, para curtir a atmosfera do lugar. 

Apontamento 361

Há quem diga que a inspiração não existe, que o ato de escrever dependeria, sim, de disciplina, de hábito, de rigor mental. Não descreio nem da inspiração nem da disciplina. Em meu caso, há textos que são pensados, calculados, que surgem a partir de uma decisão; já outros me ocorrem em momentos em que não era minha ideia escrever nada. Esse lampejo pode ocorrer por diversas razões. Há muito do inconsciente na inspiração. A impressão que tenho é a de que quanto mais leio, mais meu inconsciente vem à tona manifestando-se por intermédio de palavras. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Não me pediram para ler

Lendo o saboroso “Nonrequired reading”, da poeta Wisława Szymborska (1923-2012), que era polonesa. Não há edição do livro em português; a versão em inglês ficou por conta de Clare Cavanagh. 

Em “Nonrequired reading”, a autora escreve sobre livros que não estiveram em listas dos mais vendidos, obras que não pertencem à literatura de imaginação. Assim, há resenhas sobre livro de como consertar coisas em casa, sobre aves e pássaros da Polônia, sobre cães, sobre dois arqueólogos dos EUA...

O mais curioso nas breves resenhas que Szymborska escreve é que ela quase não fala dos livros que está, em teoria, resenhando. Em vez de falar sobre ela, a obra, a poeta embarca em saborosas, leves e bem-humoradas divagações. Sem cabotinice, acaba revelando mais de si do que dos trabalhos que (não) comenta. 

A sagacidade e o talento para enxergar questões triviais a partir de um ângulo inusitado estão presentes nos textos de “Nonrequired reading”. Também neles a sofisticada simplicidade pela qual Szymborska se tornou conhecida.

Sou um entusiasta da autora; em conversas com amigos, eu a menciono com frequência, já escrevi alguns textos sobre a obra dela. É uma pessoa que eu queria ter conhecido pessoalmente. Eu tentaria ser amigo dela. Ela me deixa com a impressão de que eu me sentiria à vontade para propor a ela a gente tomar uns chopes e jogar conversa fora. 

Adentro

Abre.
Vou entrar com vontade.
Enquanto eu estiver descobrindo
delícias não imaginadas,
que eu te faça conhecer
prazeres não concebidos. 

Fotopoema 404

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Outra exortação

Sê poeta de caso pensado.
Ou de caso sentido.
Ou de caso pensado e de caso sentido.
Ou de caso casado ― desde que comigo. 
Tu és poesia que se move.
Move-te!
Escreve teu poema,
escreve tua alma,
teu ardor
ou tua tristeza.
Escreve qualquer coisa.
Não deixes o mundo
sem tuas palavras.
Tens em mim um leitor
e o que mais quiseres de mim. 

Faça-se máquina

A máquina é deus.
Mecanismo motorizado,
idolatrado automaticamente.
Há um deus?
Por via das dúvidas,
criemos um.
Que ele seja metálico,
cheio de engrenagens,
sedutor em sua aparência sólida.
Em contato com a máquina,
seremos deuses,
invencíveis como dínamos,
motores de felicidade,
senhores da eficácia,
moto-perpétuo produtivo.

Deus ex machina. 

sábado, 22 de abril de 2017

As redes sociais somos nós

As empresas donas de redes sociais sabem muita coisa de nossas vidas por intermédio dos dados que nós mesmos fornecemos a elas. A partir daí, chegam até nós os anúncios que em tese vão nos seduzir, de acordo com as informações que passamos para os que gerenciam tais redes. Nesse jogo, todos se divulgam, divulgam sua visão de mundo, sejam indivíduos, sejam empresas. 

Quanto à interação entre os indivíduos, a ideia que é vendida é a de que as redes sociais existem para divertir, para nos conectar, para que tenhamos acesso, ainda que virtual, ao outro, embora, na prática, a rusga, no mais das vezes, seja mais real do que a divulgada sintonia. O que supostamente é congraçamento torna-se, na verdade, invasão ou ausência de privacidade; com frequência, opiniões são substituídas por bate-bocas.

No caso dos aplicativos de mensagens, passamos quase a não ter a opção de não estarmos neles. Os aparelhos eletrônicos recentes os permitem; a sociedade nos “obriga” a fazer parte da “comunidade”, seja por causa da família, dos amigos, do trabalho. Intensificando o que dizem ser intercâmbio, surgem os grupos, que, não raro, levam a desentendimentos. Aqueles que não aderem a esses grupos seriam os turrões, os que têm pouca habilidade de interação.

Tanto em redes sociais quanto em aplicativos para mensagens, a fronteira que separa o público do privado vai se esmaecendo, de modo que, espontaneamente, as pessoas passam a expor a intimidade, seja a do corpo, seja a do pensamento, seja a do outro. Se não houver curtidas ou se a postagem não reverberar num grupo, a pessoa se sente ultrajada, não valorizada, ignorada.

Dependente da curtida ou do comentário do outro, o que se divulga é a ideia de felicidade e de exercício do instinto gregário, num universo de que nem ensimesmamento nem tristeza nem solidão fazem parte; todos estão vivendo a melhor das vidas. Quando não é assim, muitos partem para o oposto, que é expor as mazelas psicológicas em confissões públicas, fazendo de redes sociais um perigoso e falso consultório terapêutico, lotado de espectadores, desnudando para muitos os fantasmas da alma.

Não seria razoável dizer que redes sociais não possam ser prazenteiras para o indivíduo; não faria sentido negar as vantagens comerciais que podem ser alcançadas por intermédio delas. Até recentemente, emissoras de rádio e de TV, bem como periódicos, eram os meios pelos quais se divulgavam marcas, eventos, espetáculos, carreiras artísticas... Hoje, há quem invista apenas em redes sociais para divulgar o próprio trabalho ou a empresa. 

O problema surge é no indivíduo, que, muitas vezes, em suas carências ou fraquezas, torna-se refém de aplausos virtuais, de glórias tênues, passageiras e ilusórias. Ou quando torna públicas suas facetas mais obscuras e bizarras. 

Corporais

De teu corpo,  
mapear cada elevação
e reentrância.
Esquadrinhar cada poro,
percorrer com segurança 
e com capricho cada curva.
De teu corpo,
sentir cada gosto,
estar dentro de onde for possível.
O amor que faço contigo
é tributo que presto 
a teu corpo,
morada de delícias.
Fazer amor contigo é 
glorificar nossos corpos,
é tê-los felizes,
é saber que
um corpo no outro 
é o corpo do amor. 

Gesto

Não consigo não olhar.
Embevecido, reparo em ti.
Teu corpo é um gesto de amor. 

Conto 93

Amaral sentia desconforto quando estava em algum restaurante e percebia que gerentes ou donos tratavam com má educação os funcionários. Quando isso acontecia, ele não mais voltava ao lugar. De tanto se deparar com superiores ríspidos nos locais a que ia, Amaral decidiu abrir seu próprio restaurante, na intenção de praticar um relacionamento gentil no trato com a equipe de trabalho. Hoje em dia, cinco meses depois de inaugurado o restaurante, trata os funcionários com grosseria. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Rio fluente

A cidade é rio de janeiro.
Tu és rio de novembro.
Eu sou rio de outubro.

Deságua em mim
para que eu deságue em ti.
Duas águas, um rio.
O poema é rio que não seca. 

Renascer

Que nascemos, sabemos.
Depois de nascer, renascer.
Viver entedia.
O renascimento 
mostra que não 
fizemos nascer 
tudo o que nasceu 
desde que nascemos.
O renascimento é 
vislumbre de vida no que
já não era susto nem espanto,
ser inédito em velho corpo.
Quem renasce quer viver mais.
Não basta nascer.
Vida que vale a pena renasce. 
Tu renasces. 

Preliminares

Quando estás por perto
é o amor que está ao lado.
Tua presença é amor.
Teu corpo, exalando amor,
recebe o amor meu que é teu.

Nosso amor está deitado e junto.
Mas já era cultivado fora daqui. 
Estava sendo feito fora do quarto.
Nossas palavras, desejo verbalizado.
O amor que fazemos é 
construído fora da cama, 
a chama é acesa à distância.
Os corpos unidos, expressão 
de desejos acalentados, prementes.
A epiderme se regozija
no que o desejo havia atiçado. 

O rio do amor

Amor é rio caudaloso.
Em seu caminho,
se preciso, 
corre fora das margens; 
em sua lógica, 
se necessário,
corre montanha acima. 

Lua minha e tua

Eu olho para a Lua.
Tu olhas para a Lua. 
Nosso mesmo amor
olha para a Lua.
Que a mesma Lua
que olhamos
olhe por nós. 

sábado, 15 de abril de 2017

Odebrecht

O Brasil
é um país
em desconstrução.

(Desde 1500.) 

Passeio pelo cerrado





Necessidade

1
O amor,
quando se declara,
não é 
devido a
evento externo,
mas a
revolução interna.
Amor não invade:
transborda.

2
Meu verso,
minha fala,
meu gesto,
meu gozo.

Tu és amor
onde transbordo. 

Literatura

Procuro 
nas linhas,
nas entrelinhas,
entre as linhas,
sob as linhas
do tecido.

A poesia
que procuro
está na pele.
Nela escrevo
meu amor,
teu amor,
nosso enredo.

O texto que criamos 
eriça as peles. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Tinto

Poderia ter havido libações.
A garrafa envelheceu na adega.
Fora desta e sem aquela, 
ficamos velhos e cáusticos. 
As coisas sabem a velhice ruim.
Sem brinde, é o gosto que levaremos. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Noite e dia

O dia que amanhece
é sinal de vida que nasce. 
Não te esqueças, todavia,
da vida que a noite tece. 

Condições

Sou poeta
quando és musa.

Faz sentido 
quando és companhia.

Faço amor
quando és corpo. 

O verso do corpo

Tua existência na minha
se torna poesia. 
O que és me conduz 
a versos,
que formam estrofes.
Literatura feita
de corpos
que conhecem
o amor.
Enquanto existires,
a poesia estará por aí.
Enquanto me amares,
estarei aqui. 
O lugar do que sou
é o amor pelo que és. 

Em corpos

Das coisas reais,
tu és a mais deliciosa 
porque és amor.
Quem ama
quer um corpo.
Eu quero o teu,
pois ele é amor.
Quando nos amamos,
a ternura e
o tesão do amor.
Teu corpo e o meu
fazemos amores. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Passeio

Tu és provocante.
Tu és provocadora.
Tu me provocas poesia.
Basta que existas.

Inunda-te.
Embriaga-te.
Aqui estão as palavras.
Sei que passeiam
por teu corpo.
Vem passear no meu. 

Imperativo

Deixa-me jorrar poesia
em tuas mãos,
em tua boca,
em teu sexo.

Deixa-me te dar
a poesia do meu corpo,
que se compraz
na poesia do teu.

Dá-me teu verso,
teu reverso,
tua inteligência,
teu humor.

Dá-me teu sumo,
tua pele,
tua sede,
tua gula.

Dá-me o que és.
O que sou é teu.
Bebe estes versos
que a ti eu devo. 

Achado

1
No amor, busco o corpo.
Teu corpo, busquei.
Já te amava sem achar teu corpo. 
Achando, achei o que busco,
que é o corpo do amor.
Nossos corpos dão 
casas à imaginação.

2
Tu dizes que sou um achado.
O maior achado meu 
foi ter te achado.

Tu existes. 
Tu me amas.
Tu me achas.

Eu existo.
Eu te amo.
Eu te acho.

Sempre que estou inteligente,
sempre que estou inspirado,
sempre que estou espirituoso,
estás presente de algum modo.

Tu és centelha de paraíso
a pisar a terra que habitamos.
Tu és pedaço de céu
que amo com vigor.

Dá-me teu céu.
Sou teu,
em chão
e em sonhos. 

domingo, 2 de abril de 2017

Escrevo

Escrevo quando estou mal.
Escrevo quando estou mau.
Escrevo quando estou bem.
Escrevo quando estou bom.

Escrevo quando penso.
Escrevo quando sinto.
Escrevo quando teorizo.
Escrevo quando ajo.

Escrevo quando sou crença.
Escrevo quando desisto.
Escrevo quando há solidão.
Escrevo quando há nós.

Escrevo quando na estrada.
Escrevo quando no quarto.
Escrevo quando é dia.
Escrevo quando há estrelas.

Escrevo quando começo.
Escrevo quando termino.
Escrevo durante.
Escrevo antes e depois.

Escrevo para mim.
Escrevo para você.
Escrevo para todo mundo.
Escrevo para ninguém.

Escrevo e jogo fora.
Escrevo e guardo.
Escrevo e releio
Escrevo e publico.

Escrevo e reescrevo.
Escrevo de uma vez.
Escrevo e corrijo.
Escrevo e sou escrito.

Escrevo com rapidez.
Escrevo com demora.
Escrevo com a razão.
Escrevo com o instinto.

Escrevo o meu sim.
Escrevo o meu não.
Escrevo o meu tom.
Escrevo o fim do texto. 

Comunhão

Os dedos se buscam,
as mãos se acham.
De mãos dadas, seguimos.
Somos duas comunhões comungando.
O descanso do amor é terna caminhada.
Duas uniões se unindo.
Não há sentido em sermos 
se não somos um para o outro;
o sentido de caminharmos
é caminharmos um para o outro.
Em móvel e antiga  busca,
nossos corpos fazem outra vez
o amor que fazemos um para o outro. 

Meus livros à venda

Meus dois últimos livros estão à venda na Livraria Cultura. Para pedi-los, basta clicar aqui

Literatura

Nosso amor estava
escrito mas estrelas.

Eu escrevi. 

Céu e terra

1
Ter contato com teu corpo 
é ter contato com uma deusa,
que me remete à beleza do amor,
que passa pela beleza do corpo.
Eu meto, teu corpo remete.
Vigor e poesia se fundem em gozo.
Força e ternura se fodem em gozo.
Outrora rarefeito, o amor é feito.
Somos telúricos e conhecemos o céu.
Concretos e plenos de transcendência,
os corpos estão doidos para se remeter.

2
Minha natureza, 
tua natureza, 
a natureza:
vento leve no cerrado,
nossos corpos estirados;
a nos cobrir, 
teto azul 
salpicado por nuvens.
Rodeados
de céu e de terra,
somos celestiais 
e telúricos;
animais na natureza, 
fazemos um amor
natural e elevado.

Verdes vales,
árvores, montanhas,
brisa e luz.
Somos amor claro
a céu aberto.
Naturezas
sendo naturais,
somos dois corpos
no chão a tatear
o paraíso.

3
Para nos amar,
buscamos o cerrado.
Nele, o topo da montanha,
onde é nosso lugar,
pois, quando há nós,
com os pés no chão,
buscamos os céus. 

A criança em nós

A criança tem o dom de se encantar. Não há rotina para ela. Para ela, tudo é significante, tudo tem significado ou tem encanto ou mistério. À medida que nos tornamos essa coisa chata chamada adulto, vamos perdendo o dom do maravilhamento. O ideal seria não perdermos o senso do espanto, usufruindo dele com os recursos do adulto. Faríamos prodígios. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Por dentro

Primeiro ela me levou para dentro da casa.
Depois ela me levou para dentro dela.
Não quero mais quero sair de dentros.

Primeiro ela abriu a porta da casa.
Depois ela se abriu.
Não me entristece mais o sabor de foras. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Poemas de minha autoria em prova da UFU


A UFU, Universidade Federal de Uberlândia, tem a chamada prova de portador de diploma. Ela é aplicada para quem já tem uma graduação e quer fazer outra graduação em área similar.

Recebo informação de que três poemas de meu penúltimo livro, o Dislexias, fizeram parte da mais recente prova de literatura da prova de portador de diploma. Nesta postagem, foto da página da prova em que há a questão que contém meus poemas. Abaixo, a transcrição dela.
_____

Questão 01

Texto I

Casou-se numa bela
manhã de sábado. 
Estava linda. 
Há coisas de meses, 
nem suspeitava de que 
casar-se-ia 
de fel e grinalda.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 25.

Texto II

Passar a matéria 
no quadro ou não? 
Eis o giz da questão.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 37.

Texto III

O envolvimento com a leitura, 
a busca pelas palavras, 
as tentativas de publicação. 

Serei olvido.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 42.

Considerando a leitura dos poemas (textos I, II e III) e seus recursos estilísticos, pode-se afirmar que

A) a ironia perpassa os poemas e revela o desencanto do eu lírico.
B) a aliteração dá, em cada poema, nova roupagem a expressões populares.
C) o eufemismo renova a experiência estética do leitor em cada poema.
D) o trocadilho dá fundamento ao entendimento de cada poema. 

Sem tempo e sem lugar

Diante de ti, vivo em um não tempo,
em um não lugar que é onde estou.
Vivo o tempo e o lugar da beleza.
Nesse tempo, não há convenção,
esse lugar não tem endereço.
Há o apenas ser diante de ti,
que apaga toda a noção do que
há ao redor, fazendo com que
a realidade seja o que há em mim
quando eu estou diante de ti.
Não há lugar, não há tempo.
Há meu corpo e teu corpo,
numa dimensão outra que é
a dimensão da beleza de dois
corpos que se unem para amar.