quinta-feira, 22 de junho de 2017

Apontamento 365

Acredito na inspiração. Não como eflúvios oriundos de fora, mas como manifestações vindas de dentro. Não há mágica nessas manifestações. Do modo como as concebo, são quase orgânicas, corporais. Em mim, elas somente vão existir depois de ter havido a leitura.

Há muito de subconsciente e de inconsciente nessa história. O que leio fica fermentando no cérebro. Enquanto estou distraído ou enquanto pareço não pensar em nada, a fermentação envia resultados. É quando vem um verso, uma palavra, uma ideia. Como não confio em minha memória, anoto o que a fermentação trouxer, seja o que for. Nem sempre a ideia é aproveitada.

Quando não há leitura, não há fermentação. É como se o cérebro ficasse sem o alimento ou sem o combustível de que precisa para se tornar inspirado ou para se tornar capaz de criar algo. Como leio com frequência, o cérebro sente falta quando não tenho oportunidade de ler. Nessa falta, ele nada cria: apenas pede que eu leia. Meu medo não é o de ficar sem ideias, mas de ficar sem leitura. Nunca fiquei sem ideias quando houve leitura. Meus fragmentos se entendem, há lucidez, inteireza.
As coisas podem me inspirar. Um luar, uma mulher, uma paisagem, um bicho podem acender em mim uma ideia. Todavia, sem leitura, não sei o que fazer quando a inspiração vem.

A leitura não me traz somente inspiração (o que já seria muito). Ela ainda faz com que eu me torne mais lúcido, com que minha autoestima não seja tão baixa, com que eu pense melhor. Seria o correlato no cérebro do que ocorre no corpo quando há atividade física. Ademais, o cérebro é corpo, é matéria. A leitura incrementa o que em mim é massa (cinzenta), torna-me mais robusto e mais civilizado. Após leituras, aceito, sem comodismo, minhas imperfeições. Quanto mais leio, mais me conheço.

A leitura não me torna um gênio, não faz nascer em mim o que em mim não tenho. O efeito dela é me colocar mais em acordo comigo mesmo, gerando momentos de tranquilidade, ocasiões em que me aceito e gosto de mim apesar de mim. Ainda que durante turbulência, a inspiração em si é sempre um momento de paz. 

Locais de venda de meus livros

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ingenuidades

Caetano Veloso, em “Podres Poderes”, que é de 1984, escreveu: “Será que nunca faremos senão confirmar / A incompetência da América católica / Que sempre precisará de ridículos tiranos?”. A história da América Latina sempre foi marcada pela figura do (ridículo) tirano. Não raro, essa figura está ligada a outra, a do salvador da pátria. Quando há crise, o solo se torna propício ou para o tirano ou para o salvador da pátria. A mesma pessoa pode encarnar os dois.

Há alguns dias, tendo eu acabado de almoçar num restaurante local, no momento em que estava pagando a conta, um outro freguês, conhecido meu, que também estava na fila para o pagamento, iniciou conversa comigo. O assunto era o momento político do Brasil. Depois de meu conhecido ter culpado tanto o PSDB quanto o PT pelo conturbado cenário institucional por que passa o país, ele disse que somente Jair Bolsonaro para dar jeito na barafunda. Segundo meu interlocutor, Bolsonaro faria o Brasil assumir um caminho honesto e ético.

Por ora, minha intenção não é discutir a boçalidade de Bolsonaro. O episódio em que ele elogiou Carlos Alberto Brilhante Ustra ou o em que ele disse que o erro da ditadura foi “torturar e não matar” (embora ela tenha matado muito) são reveladores do que Bolsonaro pensa. O que é preocupante é saber que ainda há pessoas que acreditam em salvadores de pátrias. Acreditam que basta a vontade de algum político ou de algum ditador para se acabar com a corrupção no Brasil.

Essa ingenuidade é alarmante. Repito: não somente por se tratar de alguém crer num sujeito tão tosco quanto Bolsonaro, mas por se acreditar que alguém, seja quem for, tem poder para eliminar, em um ou dois mandatos, a entranhada corrupção brasileira. Não raro, essa perigosa ingenuidade leva pessoas a defenderem a ditadura militar como solução contra corruptos. Há quem, mesmo ciente de que houve corrupção durante os governos militares, defenda ditadura, mas há quem de fato acredite que o Brasil não teve corrupção durante a vigência do golpe militar de 1964.

Num cenário sombrio, por mais ditador que fosse um tirano, não são os cruéis caprichos dele que teriam o poder de dizimar a corrupção. Não somente por estar ela tão onipresente nas instituições, nas esferas federais, estaduais e municipais, mas por haver, além da corrupção institucional, a corrupção do dia a dia. “Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos”. 

Três a três

Cruzeiro e Grêmio realizaram ontem, no Mineirão, coisa rara no futebol brasileiro: uma bela partida. A média de um gol a cada quinze minutos coroou o espetáculo .

domingo, 18 de junho de 2017

A história por trás da foto (105)

Nesta foto, uso técnica de fotografia e de edição que eu ainda não havia usado. No momento em que tirei a foto, as condições de luz estavam complicadas. Quando eu conseguia uma luz que me agradava quanto ao céu, eu perdia luz na árvore e no resto da fotografia que não era céu; quando eu conseguia uma luz que me agradava na árvore e no resto da imagem que não era céu, a luz neste não me agradava.

O jeito era então colocar a câmera sobre tripé, tirar várias fotos com exposições diferentes e depois unir essas várias imagens em programa de edição. Todavia, eu não havia levado tripé. Decidi então colocar a câmera no chão. Sob a lente, coloquei um pequeno graveto, a fim de compor a imagem. Comecei então a fotografar com diferentes ajustes, de modo a criar registros com pouca luz, com luz mediana e com muita luz.

O programa que usei para unir as fotos com as diferentes exposições foi o HDR Efex Pro 2. Esse programa pega as várias imagens com as diferentes exposições e as une num só arquivo, aproveitando o que há de detalhes visíveis em cada uma delas, por assim dizer. O tripé ou qualquer superfície firme para a câmera são necessários para que não haja discrepância no momento em que as imagens são unidas numa só. Esse arquivo produzido pelo HDR Efex Pro 2 é depois convertido para o formato TIFF (não sei se há como converter fotos a partir desse programa para o formato JPEG). Os arquivos originais eram no formato RAW.

O problema é que eu não estava conseguindo converter o arquivo TIFF para um arquivo JPEG, a fim de baixar a resolução dele e postá-lo na internet. A extensão TIFF gera um arquivo muito pesado (a imagem desta postagem, em formato TIFF, ficou com 397 MB). Tentei conversão via Photoshop, mas não consegui. Após quebrar a cabeça, consegui por intermédio do Lightroom.

É a primeira vez que crio um registro a partir da técnica conhecida como HDR (as letras são as iniciais de High Dynamic Range). É algo que eu vinha pensando em fazer há um tempão, mas ficava adiando, devido à minha ancestral preguiça. Como não achei o resultado ruim, é minha intenção produzir outras imagens a partir dessa técnica em breve. 

sábado, 17 de junho de 2017

A Época de Joesley Batista

Se a Globo quiser, Temer deve ficar até o fim de 2018. A questão é que a emissora parece, desde a delação de Joesley Batista, não querer. A mais recente cartada do “jornalismo” da família Marinho contra Temer é a entrevista que Batista concedeu à Época, que pertence ao império da Globo. A manchete da capa reproduz declaração do delator: “Temer é o chefe da quadrilha mais poderosa do Brasil”.

O fato de a Globo ter apoiado Temer e de agora, aparentemente, estar contra ele não é de surpreender. O que fico me perguntando é se, de fato, já estava arquitetado, seja por quem for, com apoio da Globo (ou pela própria Globo), que Temer seria uma “transição”, seja para o que for. Tendo sido ou tendo não sido arquitetado que Temer seria um mal necessário para essa “transição”, o que a Globo apoiará no ano que vem, quando, em tese, haverá eleição para presidente? Não importa quem ela apoie, a Globo não é digna de confiança. Sempre é preciso desconfiar das intenções dela.

Ainda que a emissora de fato queira a queda do presidente que ela apoiava até bem recentemente, manobras permitidas por lei vão renovando o fôlego do governo, que, se cair, assim me parece, não cairá nos próximos meses. Nesse quadro, tenho dois “vaticínios”: Temer fica até o fim de 2018 e Aécio Neves não será preso. 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Entrevista

Hoje, estarei no programa Entrevista, da NTV. Vou falar de meus livros. A atração vai ao ar às 18h. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

De Marco Aurélio para García Márquez

Acabei de ler uma frase no “Meditações”, do Marco Aurélio, que bem poderia ter sido a epígrafe de “Cem anos de solidão”: “Próximo decerto o teu esquecimento a respeito de tudo, e próximo o esquecimento de tudo a respeito de ti”. 

Contadoras de histórias

A senhora Dean, de “O Morro dos ventos uivantes”, é para o senhor Lockwood o que Šahrāzād é para o rei Šāhriyār no “Livro das mil e uma noites”. 

Ha Ha Ha

Há momentos em que a leitura de “Paddy Clarke Ha Ha Ha” (publicado em 1993), escrito por Roddy Doyle, acaba remetendo à de “O senhor das moscas” (1954), do William Golding, muito mais pela faixa etária dos personagens do que por pontos em comum mais intrínsecos, embora possa haver relação especular entre os dois livros. O de Golding é sombrio; as crianças, quando obrigadas a se organizarem para sobreviverem, revelam-se capazes de atrocidades. Já no livro de Doyle, elas, as crianças, embora tenham potencial destrutivo, não vão além de exercerem o típico sadismo de boa parte delas quando têm em torno de dez anos. Em Doyle, há adultos segurando as rédeas; em Golding, em boa parte da história, não.

“Paddy Clarke Ha Ha Ha” é narrado em primeira pessoa por Patrick Clarke, o Paddy que dá título à obra. Ele mora na Irlanda, na fictícia Barrytown; a história se passa na segunda metade da década de 1960. Paddy narra o cotidiano dele em casa, na escola e na convivência com os pares na região em que vive. Paddy tem dez anos; é o mais velho dos irmãos. As duas irmãs mais novas, ainda bebês, praticamente não aparecem. Já a convivência com o irmão Simbad (cujo nome real é Francis), que é um pouco mais novo que Paddy, é esmiuçada pelo narrador.

À primeira vista, o livro é uma crônica das travessuras, brigas, pequenos problemas, graças e rotina de Paddy Clarke. Todavia, à medida que a narrativa vai avançando, professores ora paternais ora sádicos entram em cena, as tensões entre os pais de Paddy vão surgindo. Os eventos dizem respeito a um passado recente do narrador. O modo de contar de Paddy é veloz, tem cortes súbitos, que fazem o texto pular de uma história para outra de modo inadvertido.

Os diálogos que Paddy tem com o pai, que também se chama Patrick, são um dos pontos altos do livro. Boa parte das conversas entre os dois são muito divertidas, mesmo quando o garoto quer entender coisas como “Terceira Guerra Mundial Iminente”, judeus, árabes, israelenses, guerra no Vietnã.

A despeito de alguma briga mais séria na escola, Paddy é um típico garoto com liberdade para brincar nas ruas de Barrytown, aporrinhando os vizinhos e praticando pequenos furtos. A tensão maior fica por conta do problema que há entre os pais de Paddy; o garoto sabe que a mãe apanha do pai de vez em quando. Há momentos em que o livro assume um tom poeticamente melancólico. Paddy quer proteger a mãe, mas não sabe como. Os ataques do pai contra ela não são explícitos; o garoto fica, quando já deitado, tentando escutar a discussão entre os pais, os passos deles pela casa. No mais das vezes, ele não testemunha a violência. Ele sabe que ela existe, ele lamenta não ter a capacidade de proteger a mãe, mas narra, sim, a atmosfera do ambiente quando das brigas do casal.

Nesses momentos, há fragilidade e uma triste ternura na narrativa; é quando o peso de ser criança vem à tona de modo mais contundente. Uma tensão começa a pairar. Mesmo não havendo violência explícita, o leitor fica algo tenso quanto ao que as páginas seguintes trarão, por já estar envolvido pelo garoto Paddy Clarke. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Efeméride

Você sabe que gosto de datas.
Nosso amor já dura
três anos e maio. 

Mais um convite

Pessoas, acabei de receber e-mail da Chiado Editora confirmando minha participação na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Estarei lá para sessão de autógrafos do Amor de Palavra, meu mais recente livro, no feriado de sete de setembro, às 13h.

Vamos todos para o Rio de Janeiro?... 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Esperando Gadot

“Mulher-Maravilha”, que está em cartaz nos cinemas do Brasil, acertou ao defender causas do feminismo. Também nesse sentido, é um filme político. Aliás, o aspecto político de maior relevância no filme é exatamente esse, que subjaz à trama do enredo, que se passa durante a Primeira Guerra Mundial.

Dos recentes filmes de super-heróis, “O homem de aço” acertou ao tratar o Super-Homem como um... extraterrestre. Depois, veio “Batman v. Superman”, que decepcionou. Fiquei torcendo, embora ciente de que isso dificilmente ocorreria, por algo no teor do que Frank Miller fizera nos quadrinhos com os dois personagens. De nada adiantou torcer, pois a abordagem do roteiro do filme está distante do que Miller fizera.

Diante disso, embora eu estivesse muito a fim de assistir a “Mulher-Maravilha”, preferi frear as expectativas, o que não teria sido necessário, pois o filme é bom. Não somente pelo enredo e pela questão de Hollywood ter aberto espaço para uma heroína num longa-metragem (o que, por si, é sintomático, por mostrar o que as mulheres já conquistaram), mas também por algo que faltou a “Batman v. Superman” — o humor. Em “Mulher-Maravilha”, ele está presente, seja nos diálogos, seja nas situações em que Diana se torna pária quando chega a Londres.

Obviamente, é impossível saber como teria sido “Mulher-Maravilha” se ele tivesse sido dirigido por um homem. À parte isso, Patty Jenkins fez um excelente trabalho. O filme, embora carregado de feminismo, não soa rançoso, mesmo quando brinca com a “inutilidade” dos homens.

Não sei se devido à qualidade da projeção do cinema em que eu estava, mas houve momentos em que achei o filme desnecessariamente escuro. Ainda que de fato seja assim, não é algo que chega a comprometer a fotografia da produção, que ficou sob a responsabilidade de Matthew Jensen. O roteiro é de Allan Heinberg.

O suposto sionismo de Gal Gadot, como cidadã, tem incomodado algumas pessoas (ela é israelense). Já outros se incomodam por ela não ser uma grande atriz. São questões que não tiram o brilho da produção como um todo, que funciona bem como entretenimento e como inteligente discurso feminista. 

“A gente não quer só comida”

Chego a um restaurante para almoçar. Uma mulher me olha com certa insistência. Fico sem saber o que fazer. Ela toma a iniciativa:

— Você não está se lembrando de mim...

— De fato, não estou. De onde a gente se conhece?

— Morei perto da sua casa, ali na Duque de Caxias. Você ainda mora lá?

— Sim, moro.

— Pois é, morei por lá. A gente já brincou muito.

Eu estava sem jeito, por não ter a menor lembrança dela. Por fim, antes de se afastar, ela arrematou:

— Você mudou muito: ficou bonito... 

domingo, 11 de junho de 2017

Afã

Devaneio pop

“Blue skies”, com a banda Noah and the Whale, e “Anabela”, com Renato Braz, são duas das canções mais tristes que já escutei. “Beautiful Sunday”, com Daniel Boone, uma das mais felizes. 

Que maravilha!

Ainda não assisti ao filme “Mulher Maravilha”. Esperando Gadot. 

sábado, 10 de junho de 2017

"Livro de uma sogra"

A proposta de “Livro de uma Sogra” (1895) é inquietante. No enredo, dois amigos que não se viam há algum tempo trocam as primeiras palavras. Quando um deles pergunta pela sogra do outro, usa termos pejorativos. O genro, então, elogia a sogra (que já estava morta quando os dois amigos se encontraram), para surpresa de seu interlocutor, o qual argumenta que, anteriormente, ele já havia escutado o companheiro dizer coisas ruins sobre a sogra. O genro, então, entrega para o amigo um manuscrito, que explicaria por que passara ele a ver a sogra de modo positivo. O manuscrito é o “Livro de uma Sogra”.

Nesse artifício literário, “escondendo”-se atrás do que diz a sogra, Aluísio Azevedo (1857-1913) apresenta uma contundente e afiada crítica contra o casamento burguês, que a sogra considera uma farsa, algo contra a natureza, nada espontâneo. Mas Olímpia, a sogra, não apenas critica a artificialidade e os interesses que movem o casamento burguês; além dessa crítica incisiva, ela apresenta uma radical solução para salvar o casamento: os cônjuges precisam conviver menos um com o outro.

Nesse viés, Olímpia, após escarafunchar a sociedade carioca (cenário do romance) em busca de um noivo para a filha, chega ao que considera ser alguém perfeito para seus projetos: Leandro. Tendo o achado, Olímpia passa a colocar em prática o plano que estabelecera para garantir à filha o que aquela não havia tido — um casamento feliz.

“Livro de uma Sogra” está carregado de tintas naturalistas. Nesse sentido, o libelo antiburguês é refém das crenças científicas da época. Assim, Olímpia alega que “para que o filho saia um ente perfeito — forte, inteligente e belo — é indispensável que venha em consequência de um perfeito amor” [1]. Esse trecho ilustra a tentativa de se tentar fazer com que uma teoria científica se encaixe num romance, o que, ademais, é um dos preceitos do Naturalismo.

Se, por um lado, Olímpia ousa, ao propor um modelo de casamento que, mesmo hoje, teria dificuldade em ser aceito (comento mais sobre como funciona esse modelo na sequência deste texto), por outro, ela reverbera o que hoje chamaríamos de machismo: “O raro caso da absoluta superioridade da mulher é uma anomalia que traz fatalmente o desequilíbrio no casal (...). Até na idade e na estatura física é conveniente, para o bom equilíbrio de um casal, que haja certa inferioridade da parte da mulher!” [2].

Romance de tese, “Livro de uma Sogra” funciona como um tratado do que deve ser feito para que o casamento deixe de ser farsa e deixe de causar apenas tédio, infelicidade e dor. Para Olímpia, um casamento somente pode dar certo se os cônjuges conviverem menos um com outro. Apresentando argumentos a favor de sua ideia, a sogra começa a esmiuçar as, para ela, causas do malogro de seu casamento, mesmo tendo ela amado o marido e tendo sido por ele amada.

A partir da investigação de si mesma e do casamento que tivera (quando escreve o libelo que lemos ela já viúva), Olímpia é radical no que propõe à filha dela, Palmira. Após conversa com a filha e com Leandro, Olímpia fez com que ele assinasse documento em que promete seguir o que ela, Olímpia, propusesse.

No dia a dia, ela passa a comandar a rotina da filha e do futuro genro. É Olímpia quem decide a frequência com que podem se ver, quanto tempo poderão ficar juntos. Sem aviso, pode, por exemplo, levar a filha para longe do Rio de Janeiro. Naturalmente, Leandro passa a abominá-la. Nas vezes em que discute com ela, Olímpia faz com que ele se lembre do documento que havia assinado.

O plano dela, sempre, de acordo com ela, concebido para garantir a felicidade da filha, felicidade que ela, reiteradamente, diz não ter tido, é fazer com que Palmira e Leandro sintam falta um do outro. O único modo de fazer isso seria forçar o distanciamento entre os dois, principalmente quando mais quisessem ficar juntos. Levando às últimas consequências aquilo em que acredita, Olímpia exige que Palmira e Leandro, mesmo depois de casados, não vivam na mesma casa; quando Palmira fica grávida, obriga Leandro a ir para o exterior e só voltar a se encontrar com a esposa quando ela já tivesse dado à luz.

Olímpia tem uma teoria sobre o amor. O que a torna instigante é a radical separação que ela faz entre o amor carnal e o amor espiritual. Para ela, o casamento diz respeito unicamente ao amor carnal. Para tanto, ambos os cônjuges têm de ser absolutamente saudáveis (Leandro passa pelo crivo de César Veloso, que é médico). Para que dê certo, o amor, no casamento, tem de ser somente corporal, orgânico. Olímpia vaticina: “O esposo do corpo não pode ser ao mesmo tempo o esposo da alma” [3]. Ela recomenda a Palmira e a Leandro um companheiro para a carne e outro companheiro para a alma, instiga a filha e o genro para que, no futuro, cada um consiga para si amante, mas um amante da alma.

O amor defendido por Olímpia requer corpos completamente saudáveis, por se tratar de um amor sensual, carnal.  Todavia, do genro, ela não espera apenas saúde. Para os propósitos dela, é bom que a inteligência dele seja mediana. Leandro era servidor público; ela o convence a deixar a carreira pública e a se dedicar ao comércio. Para Olímpia, basta uma inteligência razoável para que alguém se dê bem na área comercial. Em sua visão de mundo, um intelecto superior não seria bom para o casamento: “É impossível viver de corpo e alma para a arte e para a glória e viver ao mesmo tempo para a família!” [4].

Ainda que se alegue que a absoluta separação feita por Olímpia entre o amor carnal e o amor espiritual seja consequência de o livro pagar tributo ao Naturalismo, com sua ênfase no ser humano como, predominantemente, produto do que é seu corpo, chama a atenção a ousadia de Olímpia ao propor um casamento nada em sintonia com os preceitos românticos que norteavam (e ainda norteiam), quando do surgimento do livro, boa parte das uniões conjugais. Mesmo publicado há cento e vinte e dois anos, “Livro de uma Sogra” propõe um modelo de casamento que, mesmo hoje, é adotado por poucos. Pode ser que valha para a proposta de Olímpia algo que pode ser dito sobre o Estoicismo: é algo com que nos sentimos impelidos a concordar, mas que não somos capazes de colocar em prática; talvez não consigamos implementar o que Olímpia propõe em virtude das heranças que recebemos do Romantismo. Nesse sentido, em maior ou menor grau, somos uns românticos.
___________

[1] AZEVEDO, Aluísio. Livro de uma Sogra. Lacerda Editores. 2006. Pág. 38.
[2] Idem. Pág. 29.
[3] Ibidem. Pág. 118.
[4] Ibidem. Pág. 84. 

Fotopoema 405

Apontamento 364

Para ser risoto, não basta ao arroz estar empapado. 

domingo, 4 de junho de 2017

A mulher mais linda do planeta

A princípio, Sérgio sentiu regozijo ao receber convite da universidade em que estudara; realizaria uma conferência. Depois de terminar a graduação em biologia, deixou Montes Altos, onde nascera e havia sido criado; foi para o Rio de Janeiro. Lá, fez mestrado, doutorado, pós-doutorado. Quando voltava à cidade natal, não visitava a instituição em que havia se formado. Quando o avião embarcou, com destino a Montes Altos, Sérgio estava contente de voltar à cidade, dessa vez por uma razão acadêmica.

Quando já estava em terra firme, o ânimo do embarque arrefecera. Embora a viagem tenha durado pouco mais de uma hora, Sérgio estava entediado. No saguão de desembarque, a irmã esperava por ele. Na casa dela, ele descansou durante o dia todo. Em torno de 18h, no carro da irmã, deu a partida, começou a dirigir.

Segundo instruções que havia recebido, quando chegasse ao centro universitário, bastaria dizer o nome dele, acrescentando que estaria lá para uma conferência. Mesmo tendo feito assim, o funcionário da entrada não conseguia achar o nome de Sérgio numa folha presa em prancheta. O funcionário lia os nomes, relia, lia de novo, mas não achava o nome de Sérgio. Enquanto isso, uma fila de carros foi se formando na entrada. Olhando pelo retrovisor, Sérgio sentiu-se irritado. Também irritado, um motorista buzinou. O funcionário da entrada soltou um palavrão em voz baixa. Pegou um telefone, trocou algumas palavras com alguém e deu a Sérgio as instruções de como ele poderia chegar ao local em que teria de estar.

Tendo ficado muitos anos sem visitar o centro universitário, os parentes de Sérgio com frequência comentavam com ele que as instalações do lugar haviam sido aumentadas, o que de fato vinha ocorrendo. Havia mais prédios, o estacionamento estava bem maior. Mesmo assim, não foi fácil achar vaga. Tendo achado, antes de ir para a sala em que seria realizada a conferência, Sérgio decidiu comprar suco de laranja e algo para comer. Quando estava prestes a se sentar, percebeu Atalaia, um ex-professor, indo em sua direção. Os dois se cumprimentaram com animação. Enquanto trocavam palavras, Sérgio olhou para o lado; levou um baque.

Caminhando na direção dele, a mulher mais linda do planeta. Sérgio tentou manter a naturalidade, procurou se manter concentrado no que dizia o ex-professor dele. Todavia, a visão da mulher o atordoara. Os dois se olharam num átimo. Sérgio supôs nos lábios dela um sorriso de Monalisa. Depois de pegar um refrigerante e um salgado, ela sentou-se à mesa que ficava perto de onde Sérgio e Atalaia se encontravam. Os dois se sentaram próximos à garota. Sérgio conseguiu estar de frente para ela.

Mesmo dividido entre a atenção que dava para Atalaia e os olhares fugazes e tímidos que dirigia para a garota, Sérgio sentiu-se revigorado. Olhar para ela acendia nele uma chama que ele nem julgava ainda existir. Diante dele, uma linda mulher. A certeza da beleza, a possibilidade da aventura, o chamado para a sensualidade. Ele tentava ser o mais discreto possível, pois não queria que o ex-professor percebesse os olhares que dava para a garota de tempos em tempos.

Sérgio sabia que ela sabia que estava sendo admirada. Ela conseguia fingir espontaneidade. Tinha gestos comedidos; de vez em quando, um leve passar de mãos nos cabelos lisos. Por três vezes, olhou de relance para Sérgio, certificando-se de que estava mesmo sendo observada. Ele, por sua vez, devaneava. Que curso ela fazia? No futuro, seria médica? advogada? Teria entre vinte e dois e vinte e seis anos?

Porte, elegância, pele morena. Enquanto esteve perto dela, Sérgio se esqueceu do tédio que vinha sentindo durante o dia. Ela estava lendo uma apostila; de vez em quando, conferia brevemente o celular, dava um sorriso leve. Sérgio se imaginou beijando aquela boca perfeita. Quando Atalaia se despediu dele, num vislumbre, Sérgio cogitou inventar um pretexto imbecil a fim de conversar com a garota, pensamento que logo abandonou. Inventando o que fazer, demorou uma eternidade para vestir o casaco, que deixara sobre a mesa, enquanto conversava com Atalaia. Sentia-se como um jovem. Achou graça de seu arroubo, ao pensar que estava perto da mulher mais linda do planeta.

Em seu bolso, o telefone vibrou. Ele pegou o aparelho, leu a mensagem. Era da esposa, que ficara no Rio de Janeiro. Ele lamentou, mais uma vez, não ter a coragem de se separar dela, que, no texto enviado para ele, dizia que Téo, o filho deles, havia parado de tossir. Sérgio enviou beijos para o filho. Sentiu vontade de olhar uma última vez para a garota. Não olhando, foi realizar conferência sobre o cerrado mineiro. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Antes dos nove

Ninguém sabe quando
a viagem começa
nem quando termina.

Ninguém sabe quanto
a viagem vai durar
nem quanto vai custar.

Ninguém sabe se havia
algo antes da viagem
nem se haverá depois.

Ninguém sabe por que
há viagens que são longas
e outras que são curtas.

Ninguém sabe de onde
vieram os viajantes
nem para onde irão.

Ninguém sabe o destino
dos que não desembarcam
depois de nove meses.

Eles, não cientes da
viagem que levamos aqui.
Nós, da que levam lá.

Não carregas mais a bagagem
que desembarcou às pressas.
A teu lado, amigos de viagem. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Men at Work

O Nivaldo, um de meus irmãos, foi quem me sugeriu tirar foto deste cenário. Segundo ele, quando o Sol estivesse se pondo, haveria a possibilidade de eu fazer algumas fotos de alguns trabalhadores que estão construindo um condomínio aqui perto de casa. Para que o registro fosse feito, segundo o Nivaldo, bastaria eu atravessar a rua que passa em frente ao lugar onde moro.

Tirei a foto há minutos. Bastou atravessar a rua. 

Haicai 50

Boçal é o Moro.
Eu fico mesmo é 
com um oximoro. 

Sintonia eletrônica

Ela estava num canto do bar.
Ele estava noutro canto do bar.
Em comum, os dois,
aplicados no aplicativo,
que fez as contas,
decidiu e, 
sem eufemismos,
ordenou:
“Mete!” 

A cor da vitória

Quando Toni Morrison, que é negra, foi Nobel de literatura, em 1993, Paulo Francis (1930-1997) disse que o prêmio havia sido dado a ela porque a escritora tinha “o sexo e a cor da moda”. No dia vinte e quatro de maio, aqui em Patos de Minas, uma das candidatas a rainha do milho disse que uma negra havia ficado com o título de rainha porque “infelizmente os jurados avaliaram mais a cor. Não olharam tanto os outros requisitos que realmente eram necessários, como comunicação, simpatia. Acho que essa questão de muita igualdade (...) mexeu com os jurados”.

A discussão que tem ocorrido aqui na cidade é se houve racismo na declaração da candidata a rainha do milho. Não sei dizer. O que não se pode negar é que tanto na declaração do Paulo Francis quanto na da candidata local, há a negação dos méritos de quem obteve o reconhecimento. Paulo Francis afirmou que o Nobel foi concedido a Morrison porque ela é negra; a candidata ao título de beleza local afirma que a vencedora foi escolhida por ser negra. Ou seja, ambas as premiações teriam sido dadas em nome do politicamente correto, não em nome dos méritos das agraciadas.

Paulo Francis asseverou saber o motivo real que teria levado Toni Morrison a receber o prêmio — o fato de ela ser negra. A candidata local concorria a um título vencido por uma negra; ao não ganhar esse título, afirma que os jurados não levaram em conta “requisitos que realmente eram necessários, como comunicação, simpatia”. Na ótica da candidata, se esses requisitos tivessem sido levados em conta, o resultado poderia ter sido outro; se os requisitos tivessem sido levados em conta, a negra poderia não ter ficado com o título somente por ser negra. Isso é, no mínimo, deselegante.

Se os jurados levaram em conta o politicamente correto ao eleger uma candidata negra para o título de rainha do milho, isso seria mais uma prova do quanto o politicamente correto é prejudicial. E ainda que a equipe de jurados tenha sido politicamente correta (se é que foi), isso não anularia o fato de que a candidata derrotada, ao dizer que “os jurados avaliaram mais a cor”, foi má perdedora e ofensiva. Por fim, nunca li nada de Toni Morrison nem conheço nenhuma das candidatas. 

Entrevista no Rio de Janeiro

Na semana passada, no dia vinte e dois de maio, estive no Rio de Janeiro participando do programa Conversa com o Autor, apresentado pela jornalista Katy Navarro. Na atração, ela sempre conversa com dois autores. Na gravação da semana passada, Juarez Nogueira, que é de Divinópolis, foi o outro escritor entrevistado.

Conversa com o Autor vai ao ar pela Rádio MEC do Rio de Janeiro. O programa gravado do dia vinte e dois será veiculado em meados de junho. Em breve, dou mais detalhes. À Katy Navarro, muito obrigado pela oportunidade de ter participado do Conversa com o Autor. 

sábado, 20 de maio de 2017

"Thanks for sharing"

Ovídio, no livro “A arte de amar”, escreve sobre o amor de modo bem didático. A obra é dividida em três seções: A arte de amar, Os remédios para o amor e Os produtos de beleza para o rosto da mulher. Na segunda seção, segundo tradução de Dúnia Marinho da Silva, Ovídio escreveu: “Evite reler as cartas de amor de sua amante que você guardou; almas firmes ficam abaladas quando releem tais cartas. Jogue tudo impiedosamente no fogo”.

Se precisamos nos livrar de algo, que a destruição do que nos liga a esse algo seja radical. A premissa, que, na ótica de Ovídio, vale para o amor, vale também para o vício, segundo a abordagem de “Terapia do sexo” (“Thanks for sharing” é o título original), do diretor Stuart Blumberg, que é também o roteirista, ao lado de Matt Winston.

O filme já seria digno de atenção pelas presenças de Mark Ruffalo (que interpreta Adam) e de Tim Robbins (no papel de Mike). Mas há ainda a bela atuação de Josh Gad (que interpreta Neil). Também no elenco a atriz Gwyneth Paltrow (na pele de Phoebe) e a cantora Pink (no papel de Dede) — esta, em louvável atuação.

Adam, Mike e Neil são amigos que frequentam um grupo de pessoas que têm um vício sobre o qual há muita incompreensão e muita piada ruim, que é o vício em sexo. As sessões são muito similares às que ocorrem no grupo Alcoólicos Anônimos. Cada um dos frequentadores é convidado a compartilhar (daí o título original do filme) as experiências por que passou relativas ao vício. 

Há linhagens de filmes que não têm (ou parecem não ter) grandes pretensões. Parecem não realizar grandes reflexões, parecem não estar preocupados em levar o espectador a olhar com mais cuidado para si mesmo e para os outros. “Terapia do sexo” pertence a essa linhagem. Em sua não pretensão, acaba, paradoxalmente, levando a uma reflexão sobre a natureza do vício, não importa qual ele seja (o vício em sexo não é o único abordado no filme).

É um daqueles filmes em que é fácil nos afeiçoarmos aos personagens, que são, por assim dizer, gente “comum”; é fácil nos identificarmos com eles. Poderiam muito bem ser um de nós ou um de nossos amigos. A convivência de Adam, Mike e Neil — e a de Dede com Neil — é um terno e bonito retrato da amizade. Sem derrapar para o melodrama, os personagens vivem o pensamento de que, dependendo do que se queira, conseguir sozinho é difícil, mas se houver a ajuda de amigos, algo pode ser feito.

“Terapia do sexo” é um belo filme. Trata com maturidade e responsabilidade as agruras e os dramas de quem lida com vícios. Fica muito bem em companhia de obras-primas como “Despedida em Las Vegas”  e “O voo”. São filmes que conseguem extrair o que temos de mais humano e frágil, sem deixarem de mostrar que, mesmo diante de um fracasso, talvez haja um recomeço. 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Espaço e tempo

Eu te amo
em cada segundo 
dos meus segundos. 
Mas segundos 
são convenções;
eu poderia dizer 
que te amo,
por exemplo,
em cada minuto 
dos meus minutos.
Não há instante em que 
eu não esteja te amando.
Se digo que te amo
em cada minuto,
não estou fatiando
o amor que sinto.
Em convenção
de tempo,
esse amor habita
cada segundo meu;
em convenção
de espaço,
mora em cada
centímetro que tenho.
Mas não há convenção
que resista à tua chegada.
O tempo deixa 
de ser o do relógio.
O espaço deixa
de ser o da régua.
Quando tu chegas,
há nossos corpos,
atemporais
e
imensuráveis. 

Lingual

Coloco, sim,
palavras 
em sua boca.
Com a minha. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"A chegada"


“A chegada” lida, dentre outras coisas, com uma fascinante questão linguística, que é a de que o idioma que falamos molda o modo como pensamos. Denis Villeneuve, o diretor, explora de modo brilhante, levando-a a máximas consequências, essa questão. O roteiro é de Eric Heisserer. O filme é baseado no conto “Story of your life” escrito por Ted Chiang.

Louise Banks (Amy Adams) é a linguista contratada pelo governo americano para verter para o inglês o que extraterrestres, dispersos em doze pontos da Terra, estariam dizendo com a linguagem deles. Ela conta com a ajuda do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner). No filme de Villeneuve, Ian não tem sua mente afetada pelo modo como os extraterrestes lidam com a linguagem, por se deter ele sobre problemas relacionados à ciência que domina.

É Louise que tem sua mente radicalmente alterada a partir do momento em que vai se dando conta de como funciona a linguagem dos alienígenas. Nesse sentido, “A chegada” leva a possibilidades ilimitadas a ideia de que o idioma que falamos (ou a língua estrangeira que decidimos aprender) muda o modo como pensamos e como percebemos o tempo.

Todavia, o enredo do filme não está ligado à ideia de superpoderes. Nada disso. À medida que Louise vai decifrando como funciona a linguagem dos extraterrestres, vamos tendo contato com um drama profundamente humano por que ela passa, que é a morte da filha quando esta ainda é adolescente, tendo sido vítima de câncer.

“A chegada” é um filme de ficção científica que tem a sensibilidade de compreender dramas e dores em essência humanos, de entender que as escolhas que fazemos atendem a ditames atemporais que podemos não saber explicar, que são poderosos demais, mas que, talvez, exatamente por isso, ou seja, por serem atemporais e poderosos demais, entregamo-nos a escolhas que em nenhum contexto deixaríamos de fazer. 

Cama

A cama faz sentido quando é dividida contigo. Se aqui estás, a cama é plena, una, nua. Ela se realiza ao comportar dois. Eu me realizo se nela estamos.

Somos dois na cama. Jorram o deleite, a carícia, a saudade. O gosto do amor está no corpo. Está no gozo. Está na pele. Está na umidade que anseia.

A cama sustenta. Nós levitamos: é a cama que nos leva, que nos eleva, que se eleva. O amor é sobre a cama, é sobre corpos. O amor é sobre nós, que nos sabemos sobre a cama.

Nosso amor mora onde estejamos. A cama é encontro de amor, de confissão, de corpo percorrido, conhecido, conhecendo-se.

A cama acolhe, chama, incendeia-se. Nós somos amor de fogo e de cama. Que não se faz somente nela. Mas que na cama precisa despertar. 

Irmandade

Estou relendo “A montanha mágica”, do Thomas Mann, e “A insustentável leveza do ser”, do Milan Kundera. Enquanto eu percorria Kundera, ocorreu-me pensar em Mann. Segundos depois, passo os olhos no seguinte trecho de “A insustentável leveza do ser”, na tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca: “De fato, contra o mundo de grosseria que a cercava, tinha uma só arma: os livros que tomava emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann”. 

Texto em mãos

Eu te transformo em poesia 
porque tu me transformas em poesia.
Palavras para te regar,
para te deixarem molhada.
Florescida e florescendo,
tu estás em meus braços.
Renasço para te escrever. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Apontamento 363

Um dos personagens criados por Chico Anysio certa vez usou o termo “Istoeja”, amálgama de IstoÉ e de Veja. No contexto, o personagem queria dizer que as revistas seriam, em essência, a mesma coisa. Na época, embora eu tenha gostado do neologismo, não concordei com ele, pois os semanários tinham, então, linhas editoriais diferentes. Hoje, o “jornalismo” feito por ambas as revistas é tão idêntico que a capa de uma pode estar na outra. 

Apontamento 362

Quando termino de ler um livro de que gostei, o impulso é começar releitura mal terminada a leitura. No meu caso, é somente impulso; não sou de fazer releitura logo após leitura. Todavia, há algo que tenho dificuldade em fazer quando termino de ler livro de que gostei demais, que é guardá-lo na estante.

A vontade é de deixar o livro por perto, de continuar tendo-o nas mãos, de folheá-lo. É um modo de continuar convivendo com o livro, mesmo a leitura já tendo sido feita. É como se isso fosse um modo de reter o que me foi transmitido por intermédio da leitura realizada. Além do mais, quando se ama, quer-se por perto. 

Em claro

Faz parte de mim.
Faz arte em mim.
Eu te leio.
Eu te escrevo.
Cuido por amor.
Cuido por amar.

Fazer amor claro às claras.
Tão claro quanto o clarão do luar,
tão claro quanto clara, 
tão genuíno quanto gema. 

Para onde?

Embora eu não goste, foto tirada com celular. Eu não estava com minha câmera quando me dei conta da luz do Sol passando por uma janela e se projetando sobre a escada. 

Entrevista para a Clube AM

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A história por trás da foto (104)



Graças ao amigo Luiz Araujo, tive hoje a oportunidade de fotografar ave que eu ainda não tinha em meu portfólio — um urutau. A ave é uma espécie de campeã da discrição, pois, uma vez tendo achado galho em que pousa, fica praticamente imóvel por horas. Além dessa quase total imobilidade, as cores das penas têm os mesmos tons de galhos de árvores, o que torna difícil avistar um urutau.

Hoje à tarde, o Luiz me enviou mensagem, dizendo que havia um deles numa árvore que fica na avenida Paranaíba, quase na esquina com a rua Outro Preto. Fui correndo para lá. Cheguei, fui procurar o urutau, mas sem sucesso. Foi quando um comerciante me mostrou em que galho a ave estava. Pude tirar várias fotos. Ao Luiz, muito obrigado pela generosidade ao me dizer aonde eu poderia ir para fotografar o espécime. 

Sonho pop

Na noite que passou, sonhei que a banda Information Society, sucesso aqui no Brasil na década de 90, havia regravado "Armadilha", do Finis Africae; a canção foi sucesso em meados da década de 80. No sonho, curti demais a regravação do Information Society, tendo me surpreendido a excelente pronúncia do vocalista.

A rigor, o trabalho, em vinil, era todo de canções brasileiras. Não me lembro de todas elas, mas, além de "Armadilha", havia "Amor, meu grande amor", da Ângela Rorô, também sucesso com o Barão Vermelho. Tanto "Armadilha" quanto "Amor, meu grande amor" tinham a pegada eletrônica do Information Society. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

O peso de Galileu

Galileu Galilei (1564-1642) afirmou que dois corpos, no vácuo, com massas diferentes, se deixados cair de uma mesma dada altura, ao mesmo tempo, atingiriam o chão ou outra superfície qualquer também ao mesmo tempo. Assim, para o cientista, uma pena e uma bala de canhão largadas simultaneamente em queda no vácuo atingiriam determinada superfície no mesmo instante devido à ação da gravidade. Só que não havia como o cientista simular um ambiente em que não houvesse vácuo, ou seja, um ambiente em que não houvesse a interferência do ar durante a queda dos objetos. A Nasa simulou um ambiente assim, comprovando de modo empírico que Galileu estava correto na conclusão dele.

Tenho fascínio pela física e pela astronomia. Suponho que isso vem da adolescência, quando era muito comum eu ler textos sobre ciência e revistas de divulgação científica. Há beleza demais no Universo e no esforço humano de interpretá-lo à luz da ciência. Vídeos como esse atestam que não há frieza na ciência, mas emocionante desvelamento. O uso que se faz dela pode ser frio, mas a força da palavra também pode ser usada para aniquilamento de vidas. A ciência é tão inspiradora quanto a arte. Olhar para o céu pode tocar a mente tanto do cientista quanto do poeta. A simples contemplação das estrelas em noite escura e sem nuvens já é o bastante para o maravilhamento do que somos. Desse maravilhamento, alguns comporão fórmulas; outros comporão versos. 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Quase infantil

Rio nasceu,
foi para o mar.
Eu nasci,
fui para amar.

Rio nasceu,
foi para o mar.
Eu nasci
foi para amar. 

Ninguém

Nem o religioso
nem o imperador.

Nem o gênio
nem o milionário.

Nem o gari
nem a Nasa.

Nem o empresário
nem o marceneiro.

Nem a Rosa Cruz
nem o imbecil.

Nem o professor
nem o ateu.

Nem o sábio
nem o louco
nem o biólogo
nem a secretária
nem o padeiro
nem Choderlos de Laclos
nem o médico
nem Joaquim
nem Camila
nem Mateus
nem Marcos
nem Lucas 
nem João.

Ninguém sabe.
Ninguém soube
se o caminho da vida
continua ou termina
começada a morte. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Igreja católica diz não a proposta de Temer

Recentemente, o papa disse não para Temer. Francisco recusou convite do presidente para que viesse ao Brasil. Em texto divulgado pelo Vaticano, o chefe da igreja católica alega que não virá porque os mais pobres pagam o preço por “soluções fáceis e superficiais para crises”.

O episódio não é simples recusa diplomática para um convite, já que o argentino alega que não virá ao país por causa dos rumos que a equipe de Temer deu à economia, em que os mais pobres serão os prejudicados. Não bastasse, vale lembrar que o Vaticano disse não a um convite feito pelo presidente de uma das maiores nações católicas do planeta.

No plano local, a igreja também se posicionou quanto às ideias da equipe de Temer, em especial contra a Reforma da Previdência. Claudio Nori Sturm, bispo da diocese de Patos de Minas, emitiu documento em que menciona a diminuição dos direitos que o governo de Temer quer implementar. Na nota, o chefe local da igreja católica sugere que as paróquias fechem as portas na sexta-feira, como protesto contra a decepante reforma da previdência. 

A história por trás da foto (103)

Ontem à noite, em companhia de amigos, fui mais uma vez ao sítio do Bosquinho. Um dos objetivos era fotografar as estrelas.

A impressão que tenho é a de que, se eu pudesse, faria somente fotos noturnas. Há algo nas longas exposições, necessárias para se fotografar, dentre outras coisas, as estrelas, que me atrai demais. É que elas, as longas exposições, são um modo de brincar não somente com a luz e com a técnica fotográfica, mas também com o tempo. Também por isso, lidar com fotografia me fascina.

O tempo de exposição desta foto é de quarenta e seis minutos. Na prática, isso significa que, uma vez tendo sido o obturador disparado (o obturador é o botão que se aperta para que a foto seja tirada), a câmera ficou tirando uma única foto durante esses quarenta e seis minutos. Obviamente, o equipamento estava sobre tripé. O disparo é feito com um cabo conectado à máquina fotográfica, de modo que não preciso ficar com o dedo no botão dela enquanto a foto é tirada.

Os fachos luminosos na imagem são gerados por causa da rotação da Terra. Recapitulemos: a “duração” da foto foi de quarenta e seis minutos. Nesse tempo, a Terra girou. Girando, causa a sensação de que as estrelas mudaram de lugar. A rigor, mudaram, mas isso não importa agora. O que importa é que os fachos são produzidos graças ao movimento de rotação da Terra sobre o próprio eixo. Quanto maior a “duração” do registro, maiores serão os fachos.

Para esse tipo de foto, é bom que se esteja fora de áreas urbanas. Quanto mais longe das cidades, melhor, pois luzes artificiais interferem na imagem. Tendo achado um lugar assim, caso haja luzes artificiais por perto, como, por exemplo, as da casa de uma fazenda, é bom que sejam apagadas. Apague as luzes e acenda as estrelas. É preciso ainda não haver nem Lua nem nuvens.

Muito obrigado ao Bosquinho e à Silene, esposa dele, que tão bem nos receberam no sítio. Espero voltar em breve, seja para um bate-papo, para fotografias, para curtir a atmosfera do lugar. 

Apontamento 361

Há quem diga que a inspiração não existe, que o ato de escrever dependeria, sim, de disciplina, de hábito, de rigor mental. Não descreio nem da inspiração nem da disciplina. Em meu caso, há textos que são pensados, calculados, que surgem a partir de uma decisão; já outros me ocorrem em momentos em que não era minha ideia escrever nada. Esse lampejo pode ocorrer por diversas razões. Há muito do inconsciente na inspiração. A impressão que tenho é a de que quanto mais leio, mais meu inconsciente vem à tona manifestando-se por intermédio de palavras. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Não me pediram para ler

Lendo o saboroso “Nonrequired reading”, da poeta Wisława Szymborska (1923-2012), que era polonesa. Não há edição do livro em português; a versão em inglês ficou por conta de Clare Cavanagh. 

Em “Nonrequired reading”, a autora escreve sobre livros que não estiveram em listas dos mais vendidos, obras que não pertencem à literatura de imaginação. Assim, há resenhas sobre livro de como consertar coisas em casa, sobre aves e pássaros da Polônia, sobre cães, sobre dois arqueólogos dos EUA...

O mais curioso nas breves resenhas que Szymborska escreve é que ela quase não fala dos livros que está, em teoria, resenhando. Em vez de falar sobre ela, a obra, a poeta embarca em saborosas, leves e bem-humoradas divagações. Sem cabotinice, acaba revelando mais de si do que dos trabalhos que (não) comenta. 

A sagacidade e o talento para enxergar questões triviais a partir de um ângulo inusitado estão presentes nos textos de “Nonrequired reading”. Também neles a sofisticada simplicidade pela qual Szymborska se tornou conhecida.

Sou um entusiasta da autora; em conversas com amigos, eu a menciono com frequência, já escrevi alguns textos sobre a obra dela. É uma pessoa que eu queria ter conhecido pessoalmente. Eu tentaria ser amigo dela. Ela me deixa com a impressão de que eu me sentiria à vontade para propor a ela a gente tomar uns chopes e jogar conversa fora. 

Adentro

Abre.
Vou entrar com vontade.
Enquanto eu estiver descobrindo
delícias não imaginadas,
que eu te faça conhecer
prazeres não concebidos. 

Fotopoema 404

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Outra exortação

Sê poeta de caso pensado.
Ou de caso sentido.
Ou de caso pensado e de caso sentido.
Ou de caso casado ― desde que comigo. 
Tu és poesia que se move.
Move-te!
Escreve teu poema,
escreve tua alma,
teu ardor
ou tua tristeza.
Escreve qualquer coisa.
Não deixes o mundo
sem tuas palavras.
Tens em mim um leitor
e o que mais quiseres de mim. 

Faça-se máquina

A máquina é deus.
Mecanismo motorizado,
idolatrado automaticamente.
Há um deus?
Por via das dúvidas,
criemos um.
Que ele seja metálico,
cheio de engrenagens,
sedutor em sua aparência sólida.
Em contato com a máquina,
seremos deuses,
invencíveis como dínamos,
motores de felicidade,
senhores da eficácia,
moto-perpétuo produtivo.

Deus ex machina. 

sábado, 22 de abril de 2017

As redes sociais somos nós

As empresas donas de redes sociais sabem muita coisa de nossas vidas por intermédio dos dados que nós mesmos fornecemos a elas. A partir daí, chegam até nós os anúncios que em tese vão nos seduzir, de acordo com as informações que passamos para os que gerenciam tais redes. Nesse jogo, todos se divulgam, divulgam sua visão de mundo, sejam indivíduos, sejam empresas. 

Quanto à interação entre os indivíduos, a ideia que é vendida é a de que as redes sociais existem para divertir, para nos conectar, para que tenhamos acesso, ainda que virtual, ao outro, embora, na prática, a rusga, no mais das vezes, seja mais real do que a divulgada sintonia. O que supostamente é congraçamento torna-se, na verdade, invasão ou ausência de privacidade; com frequência, opiniões são substituídas por bate-bocas.

No caso dos aplicativos de mensagens, passamos quase a não ter a opção de não estarmos neles. Os aparelhos eletrônicos recentes os permitem; a sociedade nos “obriga” a fazer parte da “comunidade”, seja por causa da família, dos amigos, do trabalho. Intensificando o que dizem ser intercâmbio, surgem os grupos, que, não raro, levam a desentendimentos. Aqueles que não aderem a esses grupos seriam os turrões, os que têm pouca habilidade de interação.

Tanto em redes sociais quanto em aplicativos para mensagens, a fronteira que separa o público do privado vai se esmaecendo, de modo que, espontaneamente, as pessoas passam a expor a intimidade, seja a do corpo, seja a do pensamento, seja a do outro. Se não houver curtidas ou se a postagem não reverberar num grupo, a pessoa se sente ultrajada, não valorizada, ignorada.

Dependente da curtida ou do comentário do outro, o que se divulga é a ideia de felicidade e de exercício do instinto gregário, num universo de que nem ensimesmamento nem tristeza nem solidão fazem parte; todos estão vivendo a melhor das vidas. Quando não é assim, muitos partem para o oposto, que é expor as mazelas psicológicas em confissões públicas, fazendo de redes sociais um perigoso e falso consultório terapêutico, lotado de espectadores, desnudando para muitos os fantasmas da alma.

Não seria razoável dizer que redes sociais não possam ser prazenteiras para o indivíduo; não faria sentido negar as vantagens comerciais que podem ser alcançadas por intermédio delas. Até recentemente, emissoras de rádio e de TV, bem como periódicos, eram os meios pelos quais se divulgavam marcas, eventos, espetáculos, carreiras artísticas... Hoje, há quem invista apenas em redes sociais para divulgar o próprio trabalho ou a empresa. 

O problema surge é no indivíduo, que, muitas vezes, em suas carências ou fraquezas, torna-se refém de aplausos virtuais, de glórias tênues, passageiras e ilusórias. Ou quando torna públicas suas facetas mais obscuras e bizarras.